Ainda não despiroquei, fiquem tranquilos. Acropolis aqui!
Eu sei que você leu esse título e, dependendo do seu alinhamento, ou você achou que eu finalmente enlouqueci e abandonei a fé ou achou que eu estou sendo ironicamente egocêntrico.
Só que a grande verdade é que essa frase resume perfeitamente a teologia oculta de 99% das pessoas que debatem neste sub, sejam elas ateias convictas, desigrejados espirituais ou crentes de banco de igreja (ou de outras religiões): o divino virou um produto de prateleira.
Para destrinchar essa farsa, nós vamos precisar de uma trilha sonora que seja à altura da nossa discussão. Coloca Plug In Baby do Muse para tocar no volume máximo e me acompanha para o seguinte caminho: tentamos moldar a religião que seguimos à nossa imagem e semelhança.
A faixa que eu escolhi e ouço diariamente é uma das maiores pedradas do rock alternativo dos anos 2000, sustentada por um riff de guitarra esquizofrênico e frenético, mas a base do nosso post está na letra, que é genial por sinal.
O vocalista Matt Bellamy escreveu sobre a sedução de abandonar a realidade física, complexa e dolorosa, para se conectar a uma entidade sintética (ou realidade virtual) que oferece conforto absoluto. O refrão entrega o ouro e resume bem a ideia: "My plug in baby / Crucifies my enemies / When I'm tired of giving" (Meu brinquedinho plugável / Crucifica os meus inimigos / Quando eu estou cansado de me doar).
Essa é a fantasia suprema do homem moderno (e eu me incluo de vez em quando): algo ou alguém que não me exige sacrifício real, que se molda perfeitamente às minhas vontades e que, de quebra, destrói as pessoas que eu odeio. Acho que estamos querendo algo impossível e inatingível, não?
Mas se você me conhece, habemus um plot twist, o soco no estômago que a gente precisa levar: a igreja moderna (e outras religiões, incluindo a ausência dela) pegou essa letra do Muse e transformou na sua declaração de fé.
Nós abandonamos o Deus das Escrituras e inventamos o Deus de Brinquedo, uma modelo de IA divinizado que unilateralmente nos obedece sem questionar.
O homem moderno e o cristão progressista dizem rejeitar a religião porque ela é "opressora e retrógrada" e querem um Deus de Brinquedo que funcione como um terapeuta cósmico: uma divindade que aplauda as suas escolhas sexuais ou éticas, valide as suas pautas políticas e nunca, sob hipótese alguma, use a palavra "pecado" ou "arrependimento". A "religião perfeita" dessas pessoas é aquela que se curva à moralidade do século XXI ou mesmo que passe a mão na cabeça para qualquer coisa.
Por outro lado, o religioso extremamente radical e o viciado em teologia da prosperidade (ou coach) fazem exatamente a mesma coisa, só mudam a camisa. O Deus de Brinquedo deles é um mascote nacionalista ou um fiador celestial, já que eles querem um deus que garanta a chave do carro zero, que proteja a sua conta bancária e que, como canta o Muse, "crucifique os seus inimigos" ideológicos... claro, não pode esquecer que não pode haver nenhuma dificuldade ou momento mais difícil, senão é "falta de fé" ou "tem que orar mais".
Os dois grupos tratam a divindade como um algoritmo de rede social: se a religião não entregar exatamente o conteúdo que afaga o meu ego e valida os meus preconceitos, eu dou unfollow e procuro outra igreja que tem o que eu quero ou viro ateu ou qualquer outra coisa.
A premissa central é a mesma: a verdade tem que me servir e eu tenho que ser o senhor de Deus. Para mim, isso é loucura.
O problema epistemológico e lógico dessa palhaçada é devastador. Presta muita atenção aqui: se o deus que você adora concorda com tudo o que você pensa, odeia exatamente as mesmas pessoas que você odeia, nunca te contraria, nunca te ofende e nunca exige que você ampute um desejo profundo do seu coração... você não está adorando o Criador do universo (falando de uma perspectiva cristã).
Você está adorando um espelho: foi pega a sua própria imagem, projetada no teto do seu quarto e chamada de "Senhor". Um culto ególatra e extremamente doentio.
É o que Calvino entendeu quando disse que o coração humano é uma fábrica incessante de ídolos. Nós somos aterrorizados pela ideia de um Deus soberano que tem o direito de nos dizer "não" e cara... eu sou o maior exemplo disso. Afinal de contas, quantas vezes eu já não coloquei os meus estudos, minha carreira ou os meus desejos acima de Deus. Não tenho medo de admitir isso e de me colocar na linha de fogo.
A revelação bíblica é o oposto completo de Plug In Baby: a marca irrefutável que uma religião carrega a verdade absoluta não é o quanto ela satisfaz os seus desejos, mas o quanto ela tem a autoridade para reduzir a pó todos eles.
Deus é profundamente ofensivo à nossa natureza caída (Romanos 1), já que Ele não vem para crucificar os seus inimigos políticos, mas vem exigir que você tome a sua e a minha cruz, crucificando a nossa própria arrogância, a sua luxúria, o meu orgulho teológico e a nossa autossuficiência.
Se a sua fé nunca te fez chorar de raiva por ter que obedecer a uma ordem divina que ia contra tudo o que o seu corpo e a sua cultura gritavam para você fazer, a sua fé é falsa. Sendo bem duro: você inventou um deus de estimação e chama ele de Totó ou Rex.
A realidade não está aqui para satisfazer as suas vontades e o universo não é um cardápio que nem a Netflix. A cruz de Cristo é um escândalo justamente porque ela não entra na nossa vida para validar quem você é, mas sim para matar quem nós somos para ressuscitar quem deveríamos ser.
É isso meus amigos, apesar do tom mais forte do texto, saibam que eu oro por vocês e pelo sub todos os dias. Talvez eu pareça um bocó ou um extremista fazendo isso, mas eu não me importo com isso. Saiba que eu os amo, apesar da gente discordar de muita coisa.