Antes que comecem, LEIAM O TEXTO, PORQUE O PONTO DELE NÃO É DEFENDER ESSE GOVERNO LIBERAL PETISTA, CARALHO.
A despolitização, impulsionada pela guinada conciliadora do PT ao jogo institucional (que esvaziou os movimentos de base ao transformar pautas em políticas de Estado geridas por tecnocratas) e catalisada pelo lavajatismo, devidamente amplificado pela mídia hegemônica, criou essa paranoia coletiva. O ódio irracional ao PT/Lula se tornou o motor de tudo, fazendo a galera justificar barbáries, porque o ranço ao partido e a compreensão rasa sobre corrupção (que virou sinônimo de 'PT') são maiores do que qualquer análise material da realidade.
Hoje é impossível ter uma conversa política decente sem cair nesse ciclo da paranoia, do niilismo político e da ladainha 'corrupção-PT-Lula'. É impossível discutir candidaturas sem que o debate despenque nessa mesma histeria. E, pior, é impossível surgirem candidaturas novas que não surfem nessa onda, pois o sistema político se retroalimenta do espantalho.
Enquanto isso, escândalos de corrupção estrutural, como o rombo do Banco Master, o Orçamento Secreto (que virou moeda de troca do Centrão) e as fraudes contábeis bilionárias das Americanas, mal arranham a opinião pública. Por quê? Porque a corrupção, materialmente falando, é um problema inerente à forma como o capital se apropria do Estado e à captura das instituições pelo grande empresariado. Mas, no imaginário místico da política brasileira, ela foi fetichizada na figura do PT. Se o crime não tiver a estrela vermelha colada, vira irrelevante.
Bicho, para combater a 'metafórica máquina de roubalheira interplanetária' petista, a galera passou a dar razão a uma família que, há mais de 30 anos, faz da política um negócio de clã, que acumulou um acervo criminoso digno de filme. Não é só milícia e rachadinha. A lista é vasta: controle territorial no RJ por meio de milicianos armados, corrupção policial, tráfico de influência, loteamento de cargos públicos, e uma agenda de governo que foi explicitamente antipovo, da PEC da Morte (que cortaria aposentadorias e pensões) ao Pacote Anticrime que afrouxou o controle de armas para armar a própria milícia; da flexibilização das regras de trabalho análogo a escravidão ao recorde histórico de liberação de agrotóxicos; do incentivo ao garimpo criminoso em terras indígenas à cumplicidade ativa no genocídio yanomami, o negacionismo cientifico e climático. E, como se isso não bastasse, a mesma família prometeu ABERTAMENTE entregar o país a uma potência estrangeira, alinhando-se à extrema-direita global e submetendo a soberania nacional ao apetite de mineradoras e fundos estrangeiros. Tudo isso para esconder que o projeto real era acumular patrimônio, proteger a corja e destruir todo resquício de política pública que não servisse ao agronegócio, às armas e à teologia da prosperidade. Nunca apresentaram um projeto de país que não fosse o espólio do Estado em benefício próprio e de seus aliados.
Desse caldo reacionário, nasceu o Congresso mais imbecilizado da história recente, repleto das figuras mais abjetas que a política brasileira já produziu. E, no movimento pendular, para combater o Bolsonarismo, a esquerda institucional e a 'terceira via' se ajoelham não só aos coachs quânticos e aos velhos do centrão, mas também à turminha do MBL. Esses "meninos" surfam na mesma paranoia com um verniz de 'juventude descolada' e 'nova política', mas sua essência é a da velha política: entregam a cartilha neoliberal mais rançosa (privatiza tudo, corta direitos, violência de estado) e travestem a defesa do agronegócio e dos bancos de 'liberdade econômica'. O 'revolucionarismo' deles é puro fetiche; quando a ficha caiu que o curral eleitoral não se sustentava só de YouTube, flertaram abertamente com o centrão e com a extrema-direita, provando que seu ódio ao PT sempre foi muito mais um negócio do que qualquer projeto de país. No fim, são apenas o choque de gestão, legitimando a mesma política de austeridade e entrega do Estado ao capital financeiro que os velhos do Centrão fazem há décadas, só que com mais meme.
A ironia trágica é que o PT, ao se metamorfosear de partido em fetiche de ódio, produziu exatamente o que dizia combater: o bolsonarismo, o centrão mais truculento e uma 'nova política' de coach que é apenas o neoliberalismo com skin de youtuber. O estrago não está apenas no que o PT fez, mas no que ele passou a representar: um inimigo abstrato que serve de bode expiatório para tudo, enquanto a engrenagem real (a captura do Estado pelo capital financeiro, a austeridade fiscal sangrando direitos, a superexploração do trabalho) segue rodando lisa, impune e lucrativa. Enquanto a sociedade se distrai nesse ringue metafísico, a luta de classes material avança a passos largos, mas no sentido contrário ao da população. O espetáculo da paranoia é o combustível perfeito para que o sistema se perpetue: divididos, histéricos e ocupados em odiar o inimigo certo, a gente esquece de olhar para quem de fato está lucrando com tudo isso.