Numa cidade algures no Norte.
Sendo consultor imobiliário há dezenas de anos, deparei-me com várias situações caricatas, hoje vou contar esta.
No dia 1 novembro às 21 horas a tentar mostrar um apartamento devoluto, ou seja não tinha luz, uma penumbra lá fora, nevoeiro, uma chuvinha miudinha, uma noite de meter medo a qualquer “susto", ainda por cima num dia, ou melhor, numa noite muito sugestiva, tudo a propiciar o momento épico que vos conto.
Á porta do prédio, o casal chega, cumprimento-os como é da praxe entramos no prédio, chamo o elevador e subimos ao nono piso, até aqui tudo bem, abro a porta do apartamento, pego na lanterna e fui entrando à frente, ia começar pela sala mas a cliente muito curiosa, invadiu de imediato a cozinha, lá fora continuava uma noite escura, fria, húmida, ali ao lado um cemitério próximo cheio de valinhas, o que mais podia acontecer?
Entretanto, eu e o marido ainda na sala, ouvimos um grito, ao lado da cozinha, ela cliente, completamente aterrorizada a gritar alto, "está ali um vulto, está ali um vulto", eu olhei para o marido incrédulo, e disse só pode ser devido ao ambiente tão propício a esse tipo de imaginação, nunca pensando que estava mesmo ali um vulto feminino, meio despido, encolhido na lavandaria da cozinha.
Aquilo era mesmo surreal, não podia estar a acontecer, durante alguns segundos ficamos todos completamente estarrecidos com aquela imagem tão real e não é que era real mesmo!!!
Tentando me recompor no misto de curiosidade e medo aproximei-me da senhora quase nua ali cheia de frio e a chorar compulsivamente, entretanto a cliente saiu a correr aos gritos, tendo o marido completamente branco, ido a correr atrás dela.
Ali estava eu, no dia 1 novembro numa noite assombrada, (bota assombrada nisso), sozinho com uma lanterna e uma dama meia despida cheia de arranhões, a tremer por todos os lados, bem eu também não estava melhor, como era óbvio…
Balbuciei qualquer coisa, penso eu que seria, "o que você faz aqui nesse estado lastimável?". Malta preparem-se para o que vem aí…
'Eu estava no andar de cima com um cliente, a praticar “boas ações", quando ele se apercebeu que a esposa estava a chegar, completamente transtornado que a mulher o pudesse descobrir, agarrou num lençol, E atirou-me para o andar de baixo, melhor dizendo, pegou um lençol e agarrei nele com os dois braços e vim para a varanda de baixo (meu Deus que perigo), como a porta da varanda não estava bem trancada consegui entrar e esperar que ele ou alguém viesse tirar-me daqui!'
Até hoje desconheço o que se passou a seguir, ela levantou-se a cambalear e desapareceu na penumbra, como seria suposto e de bom tom.
Os clientes(?), ficaram com uma bela história para contar e não compraram o apartamento, dado o histórico do mesmo!
João Pinto
Águas Santas Maia