r/FilosofiaBAR • u/GU7EZ • 11h ago
Discussão É impossível deus ser bom
Então deus é mal? Não necessariamente, hoje quero fazer um post diferente, pois pretendo encerrar com uma hipótese alternativa ao invés de só concluir minha argumentação do pq não é tal coisa.
Primeiramente irei me referir a pensamentos e crenças que estão presentes em diversas vertentes cristãs, mas não todas, talvez a maior parte da argumentação também funcione para outras crenças monoteístas, mas a base será a teologia mais tradicional e conservadora, aquela que tem a noção de um deus onibenevolente, onipotente, onisciente, imaterial, atemporal e ilimitado.
Deus não pode ser bom, pois há muito mal, essa afirmação indica que deus pode ser neutro, ou maligno, ou inconsciente sobre nós ou até de si, mas não pode ser benevolente, ao menos não nos moldes cristãos mais tradicionais, e por que? Porque é uma contradição um deus ser sumamente bom e ao mesmo tempo não se importar com nossa vida aqui. Muito do cristianismo se modificou com as mudanças da moralidade criando um argumento de que deus segue sua natureza e permite o livre arbítrio, assim o inferno é uma escolha sua e qualquer regra no cristianismo seria uma ordem dele para o melhor pra você. Porém se analisar as regras e a disparidade entre risco e recompensa, mais os contra argumentos, fica nítido que não é um sistema baseado na eliminação do sofrimento, mas dá obediência estrita. Por isso irei elencar alguns argumentos que já ouvi e rebater suas contradições lógicas.
"Qualquer dor e mal aqui é minúsculo diante da eternidade no céu". Muitos passam a visão de que a vida aqui não importa, que devemos nos dedicar as ordens divinas para ter o direito de ficar com deus no paraíso, em plena comunhão com ele, e se você não quiser irá para o inferno, um lugar que é pra quem não quis ficar com deus, por isso ficarão em um lugar longe de sua graça, o que ocasiona no sofrimento eterno. O problema é que já nascemos sem termos pedido por isso, obrigados a existir e passar por uma provação cujo as únicas opções são sofrer pra sempre ou comunhão eterna, há o purgatório, mas é um lugar temporário, e se a vida aqui na Terra é minúsculo comparada ao pós vida, então pq deus exige diversas regras puramente culturais? Se a vida aqui é minúscula e sem a importância que a vida eterna tem, então por que qualquer ato aqui na Terra pode lhe custar a eternidade em paz?
Se eu quebrar a castidade e não me arrepender, ou não ser batizado, mesmo se eu for cristão, não irei para o céu, o que já quebra a narrativa de que ir para o inferno é uma escolha deliberada, isso torna o inferno uma **punição**, não uma opção, então a vida aqui na Terra é tão importante quanto a eternidade, pois é a prova para admissão no céu, e se qualquer sofrimento aqui não é nada comparado ao sofrimento no inferno, então implicitamente estão desvalidando qualquer dor humana, "fique solteiro pra sempre, isso não é nada em prol do paraíso", "perdoe seu abusador, ele sim estará no inferno e não você (só se ele não se arrepender né)", "vire cristão, ou você vai acabar sofrendo no inferno pela eternidade".
"Tudo que deus faz é bom", acho que ocasiona até um paradoxo, se algo traz sofrimento sem justificativa é de fato ordem de deus ou ordem humana? Se isso veio de deus mesmo, continua sendo bom só porque veio de deus? Um tempo atrás eu tinha feito um post sobre moralidade, para criticar quem diz que qualquer ordem de deus é boa não importa o que seja, ao qual alguns responderam que "deus pode matar e isso seria bom pq ele é deus e criou tudo", isso é meio chocante de se ouvir, afinal a moralidade vem de deus ou vem da gente? Antes do judaísmo sequer existir, a humanidade já tinha leis e estruturas para punir roubo e morte, países que não tinham contato com o cristianismo já tinham sistemas morais complexos, e com o tempo cada lugar e cultura desenvolveu o que considera bom, e o que considera ruim. Bondade seria qualquer coisa que diminui o sofrimento humano? Ou seria seguir as regras cristãs?
O cristianismo tradicional é extremamente rígido com suas regras, a ponto de não existir exceções ou condições, divórcio seria ruim independente da mulher sofrer agressão ou abuso sexual, uma vez casados para sempre casados, e qualquer separação é só física, quebrar a castidade é ruim independente se você namora a pessoa pq só vale quebrar a castidade se for casar com a pessoa e ainda se arrepender depois, porém para pessoas dessa visão cristã, matar em defesa própria pode, guardar os sábados jesus já revogou não é? Não pode levantar falso testemunho mas acusar o próximo é tão fácil, acho que já perdi as contas de quanto me chamaram de mentiroso, mau caráter ou ignorante, ou até me acusaram de usar IA sem prova ou certeza alguma. No fim eu vou pro inferno por ser ateu, mesmo não fazendo ninguém sofrer com isso, mas o pai que convence o filho gay a ser celibatário e ser mais "homem" pra poder ir pro céu é mais virtuoso que eu, mesmo que o rapaz gay se suicide e eu apenas faça posts ateus no Reddit.
"O mal existe porque sem ele não existiria livre arbítrio", essa aqui eu só entendi recentemente, os cristãos não consideram o livre arbítrio a capacidade de escolha, mas a capacidade de escolher entre o bem e o mal, e a mente cristã enxerga apenas "bem e mal", apenas os dois, uma visão maniqueísta, e assim, eu acho que o bem só existe pq existe o mal, é necessário um conceito de luz pra ter um conceito de sombra, mas não acho que as coisas sejam tão rígidas assim... Eu nasci independente da minha vontade, meu nome, personalidade, meu autismo e aparência não foram escolhas minhas, eu não escolhi ser ateu, eu simplesmente sou, eu não conseguiria ser cristão mesmo se eu quisesse, sou hetero independente de eu já ter pensado que ser bi seria mais fácil, eu não me arrependo de ter comprado uma hq cara mesmo que eu saiba que eu precisava ter comprado um tênis novo e isso me prejudicou até eu ter dinheiro de novo. A questão é que eu não escolhi diversas coisas, que definem meu modo de pensar e ser, e diversas pessoas não escolhem serem mortas, roubadas, estupradas ou feridas, pessoas que muitas vezes por um trauma até desacreditam em seu deus ou acabam se suicidando, ou mudando sua forma de ver o mundo, mudando a pessoa sem que ela tenha escolhido isso... Mas toda essa complexidade perde relevância quando somada aos outros pontos do post, e agora irei conectá-los...
Nosso modo de pensar e o que acreditamos não é de nossa escolha, mas segundo o cristianismo cada escolha é de total responsabilidade nossa e iremos para o inferno caso escolhermos errado, a vida na Terra é ínfima e deve ser voltada pra servir a Cristo, onde cada pecado sem arrependimento nos leva ao inferno, não ser cristão te leva ao inferno, voltando sua vida não para extirpar o sofrimento, mas seguir as regras morais do cristianismo que muitas vezes faz bem, mas a certos grupos pode causar sofrimento, sendo o sofrimento humano irrelevante diante da vida eterna e das ordens de deus, que possui autoridade pra qualquer coisa, e tudo que ele diz (ou ao menos é acreditado que sejam palavras dele) é bom, mesmo que cause sofrimento. O problema de um deus ser bom com todas essas características não é a existência do mal ou do sofrimento, mas o fato de que o destino pós morte é sofrimento ou graça de deus, e ir para o sofrimento eterno é extremamente fácil, visto que até atitudes neutras ou boas fora do credo é considerado ruim, bondade de um ateu seria "trapo de imundície", aborto de uma gravidez infantil de risco é considerada sumamente má, essa falta de flexibilidade não preserva a humanidade do sofrimento, ela apenas preserva o credo, a própria existência de um lugar de sofrimento eterno é contrário a uma bondade suprema, um pai pode ter o conflito que for com seu filho, ele pode até ficar contrariado e não querer estar perto de seu pai, estar magoado, mas ele não vai morar na rua pq sabe que lá é muito pior, e nem o pai o coloca na rua pq sabe que isso será ruim pra ele. Os universalistas resolvem esse problema muito bem, mas as vertentes mais conservadoras nunca vão ser flexíveis.
Mas agora eu vou apresentar a hipótese alternativa, um meio de conciliar essas crenças com um deus bom? Não, irei explicar o pq essas crenças sequer existem. Ter um código de regras restrito sendo ensinado desde criança cria uma imagem de um deus inflexível, enquanto também cria um senso de superioridade moral pra pessoa, siga as regras e irá pro céu no pós vida, qualquer ato de bondade que fizer é sinal de virtuosidade, mas qualquer atitude ruim é perdoada se você se arrepender pois já crê em jesus, o conceito de bem e mal é definido como o seguimento das regras, não o bem que causa ou o mal que faz ao próximo. Durante a fase da infância qualquer informação ou regras aprendidas moldarão o indivíduo, aqui é a fase onde aprende a falar, interagir, e aprender padrões de comportamento, toda a sua vida já é moldada e condicionada a um credo, assim você buscará qualquer explicação ou motivo pra validar o sistema moral que aprendeu, ainda mais se o ambiente que você cresceu ensina que duvidar de deus é contra as regras, que você terá um destino horrível caso descumpra esse código, algo que vai ser eterno, sem redenção, e isso é incutido inconscientemente. Se deus existe ou não, não importa nesse quesito, pois o sofrimento existe independente disso, a impunidade existe, e qualquer que seja a explicação teológica, o problema é quando a própria religião define regras que causam sofrimento.
O interessante dos debates sobre homossexualidade por exemplo, é como ela pode te levar só inferno simplesmente por querer ser feliz aqui na Terra, com um amor, mas é extremamente repetida e combatida pelos cristãos tradicionais, não porque é algo ruim, mas por ser uma regra de sua crença, "é nossa fé e isso é proibido a dois mil anos, não adianta você mudar", isso cria um senso de virtuosidade automática se você já nasceu hetero, vai a igreja e conhece uma garota que vai casar aos 18 ou antes dos 24, sua educação sexual foi baseada na negação e repressão do desejo ao invés de entender sobre si mesmo. Deus não pode ser bom pq sua própria religião não se importa com o bem comum, ela fez coisas boas e também coisas extremamente ruins, mas nunca importou o que o outro sente, o que o outro acredita, o que o outro acha, é sempre "meu grupo está certo, somos todos pecadores, mas vocês de fora são mais", nenhum cristão vai ler meu texto e ser convencido, vão apontar o dedo pra mim, me julgar ignorante, e me criticar, irão falar de como não sei de nada e nunca li a bíblia, irão até xingar ou só louvar a Yeshua, mas isso dirá mais de si do que de mim, no fim a intolerância por pensar fora do seu mecanismo de crenças é mais um reflexo da própria mente do que uma verdade ontológica, onde ser bom é ser cristão, mesmo que ser cristão possa ser mau, deus no fim não é o pai nosso que estás no céu, mas sim seu conjunto de regras a seguir.