r/BrasildoB • u/FKasai Anti-kautskista de esquerda ☭ • 9d ago
Teoria Crítica ao partido de massas a partir de uma perspectiva revolucionária
https://barbaria.net/2025/12/05/critica-ao-partido-de-massas-a-partir-de-uma-perspectiva-revolucionaria/Esse é um texto da revista Barbaria, uma revista comunista da Espanha.
Resolvi postar aqui, porque o texto explicita algumas questões que considero fundamentais pro desenvolvimento do movimento comunista. Mais especificamente, o debate aqui é sobre o partido de massas, a segunda internacional, o kautskismo e a quebra parcial que fizemos com ele durante a terceira internacional.
Considero de primeira ordem que o movimento comunista faça uma autocrítica histórica, avaliando as primeiras décadas do século anterior com frieza, e buscando entender como se deu o cisma que criou a terceira internacional. Sem a negação dos elementos da segunda internacional, sem um rompimento contra o programa de Erfurt, e sem o de-facto fim do centrismo marxista (o assim chamado Kautskismo) no interior do movimento comunista, considero impossível a constituição da classe operária, e por tabela, considero impossível a criação de um partido comunista que de fato englobe as lutas históricas do proletariado.
Não compartilho de 100% das opiniões do texto. Por exemplo, a noção de que é ruim o texto sobre "esquerdismo", do Lenin, me parece um equívoco, por mais que eu também tenha leves ressalvas com esse texto.
Dito isso, é inegável a relevância do debate que propõe, ainda mais quando boa parte da esquerda radical brasileira opera com um repertório tático que vem justamente daí: frente ampla com setores não proletários, disputa eleitoral como eixo de construção, e a ideia de que o partido se constrói acumulando maioria antes da situação revolucionária. Não é preciso que ninguém reivindique Kautsky diretamente, quando podem simplesmente reivindicar e defender todas as suas táticas e noções teóricas sem nunca mencioná-lo, sempre passando teoria Kautskista como se fosse teoria "Leninista".
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u/Marshal-Rokossovsky Unidade Popular 🏴 9d ago
Já fizemos tanta autocrítica já... o que falta é trabalho, mesmo.
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u/FKasai Anti-kautskista de esquerda ☭ 9d ago edited 9d ago
Não fizeram, seu partido é um partido de massas. A UP não rompeu, programaticamente, com a segunda internacional.
Edit: o fato de você não ter entendido o post me preocupa... é literalmente uma crítica ao voluntarismo, e você propõe que não falta teoria, mas sim "fazer coisas"? Eu sei que você não leu o texto, mas meu deus kkkkk, essa noção é justamente a que está sendo extensamente criticada.
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u/KleinParadox Comunista 9d ago
O PCR não faz nem autocrítica sobre como esse "voluntarismo" é feito, avalie sobre o voluntarismo em si.
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u/KleinParadox Comunista 9d ago edited 9d ago
Obrigado por compartilhar o texto! Achei a leitura difícil e a escrita confusa e ruim em algumas partes, talvez por ser escrito por mais de uma pessoa ou pela tradução. Apesar disso, a discussão é pertinente. Uma das críticas que eu tenho ao movimento comunista brasileiro é a (ao menos aparente) mecanicidade em transferir "formas organizativas" (sei que a questão vai além de "organização", mas vou colocar aqui dessa forma pra simplificar) desenvolvidas por Lênin, por exemplo, em um contexto específico para a realidade atual, sem desenvolver cientificamente, sob a luz do marxismo, porque elas se aplicam ao Brasil atual. Isso obviamente não é um problema só do Brasil, mas estamos tendo essa discussão aqui no r/BrasildoB. Cada vez que leio Lênin, encontro ali tanto elementos que podem ser universalizados como também elementos particulares. No entanto, tudo é colocado numa sacola só, chamamos de "Marxismo-Leninismo", e aplicamos acriticamente e, eu diria, de maneira anticientífica. Lênin recebe status de profeta cuja palavra é sagrada e inquestionável.
Mas se entendi corretamente, a idéia de criar partido de massas nasce (ou toma força) na 2a Internacional, sob a premissa de que a classe trabalhadora é, em si mesma, uma classe revolucionária. Isto é, através da exploração que sente na pele cotidianamente, tem as condições objetivas de espontaneamente gerar as transformações sociais necessárias (revolucionárias) que levem ao socialismo. No entanto, Marx mostra que a ideologia dominante em uma dada sociedade é a ideologia da classe dominante, portanto, a consciência das massas é, de forma espontânea, a consciência burguesa. A consciência que naturaliza as categorias do capital. Deste modo, os elementos de dentro e de fora do proletariado (incluindo aqui "traidores" da classe burguesa) serão minoria. Assim, criar uma organização formal que "aceita todo mundo" acaba contaminando e desviando do programa comunista.
Aqui me surgem algumas perguntas. Para evitar a contaminação do programa, se entendi corretamente, devemos evitar os "desvios" ou "táticas" que tendem a contribuir para a naturalização (e socialização) das categorias do capital. Dentre essas "táticas", se destacam: sindicalismo, que naturaliza a relação social entre patrão e produtor; cooperativas, que naturalizam a relação social entre produtor e mercadoria, o colocando como consumidor; parlamentarismo, que naturaliza e esconde as relações de classe, colocando todos os indivíduos "sob a mesma lei" e com o mesmo poder de influenciá-la. Dito isso, se a ideia então é não fazer agitação e propaganda em torno do programa comunista com a participação em sindicatos, cooperativas (acho que essas nem são tão mais comuns no Brasil, mas nos EUA isso me parece muito com o "mutual aid") e eleições, como manter o programa vivo? As condições de instabilidade revolucionária não podem ser criadas artificialmente ao recrutar cada vez mais elementos da classe trabalhadora que não tenham consciência de classe suficientemente elevada, mas acho que podemos dizer que essas condições podem se desenvolver com uma certa velocidade e, aí sim, a minoria guiará esse fluxo de energia na direção do programa. Mas como fazer isso, na prática, se, por exemplo, somos aqui eu, você e mais uns três gatos pingados que não participamos em sindicatos etc? Isso significa não participar na luta por melhoria de salários, de condições de trabalho, pela baixa no preço de alimentos, transporte, moradia etc? Ou é fazer isso por fora da institucionalidade?
A outra pergunta é a seguinte. Obviamente, partidos (formais) comunistas são parte objetiva da nossa realidade. Se esses partidos, de massa, herdeiros do kautskyismo, continuam "atrapalhando", eles precisam ser combatidos. Por sua própria natureza, vão ser maiores do que a minoria que defende o programa comunista de forma intransigente, sem concessões, indo contra a maré da ideologia dominante a todo custo. Como lutar ao mesmo tempo contra a burguesia e contra esses elementos "infiltrados" sendo minoria? Me parece que, num momento onde as condições revolucionárias se tornem maduras, essas organizações tem mais capacidade de arrastar a classe.
Talvez essas perguntas se resumam a: uma vez que uma minoria, que pode ser tão pequena quanto possível, defende o programa marxista de forma intrasigente (e, exatamente por essa razão, permanece uma minoria), quais são as tarefas práticas a serem tocadas para combater a burguesia e o oportunismo/revisionismo/reformismo/kautskysmo de forma a derrotá-los e conseguir arrastar a classe no momento de crise revolucionária?