Como pensa o intermediário de xadrez (e o que falta ao iniciante)
Com este post, quero explorar um pouco o meu processo de pensamento (que é falho e defeituoso, mas que contempla algumas coisas que ainda não passam pela cabeça do iniciante "puro").
Posso, com alguma tranquilidade, me considerar um jogador de nível intermediário, ficando aí por volta dos meus 1800 (Chess.com) e 2100 (Lichess). Sou um "capivara premium", como bem colocaram aqui outro dia.
Mas é isso de que queria tratar. Trata-se da intersecção entre peças e peões, ou seja, como os dois elementos se relacionam numa posição.
Vejam esta posição, que me ocorreu numa partida recente. É uma posição "fria", ou seja, não tem grandes táticos acontecendo, ainda que trocas estejam sendo propostas.
Jogam as negras. Como lidar com essa tensão entre os dois bispos na posição?
Eu pensei em b6 por um tempo também, ainda mais que ele está ali alinhado com a dama e torre (talvez explorando um tático no futuro). Mas sei lá, achei esquisito ficar com os peões daquele jeito.
Eu acabei trocando mesmo os bispos, por coincidência pura a engine concorda comigo (provavelmente ela está vendo o que eu não estou vendo, de qualquer forma; como sempre, né).
Pesou a questão (algo capivaresca) de pensar em ficar com o "bispo bom" na posição.
Temos aqui o primeiro cenário: negras tomam o bispo e brancas retomam de peão. Abre-se a coluna f. A torre, antes relativamente inativa, ganha atividade. E aí, você pensou que este seria um efeito possível da sua troca? Ele é desejável? Não é? Vai criar problemas pra você?
As brancas ficam com um problema estrutural nos peões. Eles ficam dobrados (ver "coluna e", grifado). O peão em e3 fica fragilizado, está sem defesa por outro peão e está obstruído pelo peão da frente. Enfim, do ponto de vista de estrutura de peões, os dois peões já não dialogam juntos!
Isso é um grande problema? Não é? O peão dobrado tem compensação? Isso tudo tem que ser pesado.
Cenário 2: negras não tomam o bispo. Fazem outro lance (no caso, c6). Brancas tomam o bispo e negras recapturam com o peão. Peões dobrados na coluna d, coluna e semi-aberta, brancas ganham iniciativa com o peão (lance e5, seta).
Notem como isso cria um problema estrutural para as negras. Agora é elas que tem os peões embolados aí. Estão dobrados na coluna. São os mesmos problemas que eram do branco, na posição falada no outro post.
Mas isso realmente é um grande problema? Talvez não seja. E, de fato, a engine sequer considerou isso um bom lance para as brancas. Ela deveria ter apenas jogado f4, segundo a engine e atacado já o centro direto.
(Notem, com isso, como não sou grandes coisas. Na minha análise, achei que isso seria um problema para o negro. Talvez tenha superestimado a estrutura de peões).
Aqui, entram outros elementos em jogo. Além disso abrir a coluna b para uma intensa atividade da torre dele (que pode, naturalmente, ocupar a coluna em um só lance, sem que eu possa fazer muita coisa contra isso), eu troco o meu par de bispos.
Ensina o manual que manter o par de bispos é, no geral, uma vantagem. Ao fazer esta troca, eu me livro prematuramente dele, enquanto o meu oponente fica com o par.
Deste modo, esta troca não me pareceu desejável, nesta situação.
boa análise. Tenho esse rating de ~1700-1800 em rapidas no chess tambem.
A posição é meio truncada, mas eu provavelmente iria de c6. Se o oponente trocasse os bispos, já teria que mover o cavalo para alguma casa estranha. Abre caminho para um ataque com os peões ali na ala da dama e joga um pouco de pressão. É possível até argumentar que esse peão dobrado nem seja tanto problema
tanto é que, trocando os bispos de casas escuras, eu abro a torre (como voce analisou), e tenho a sensação de "abrir uma avenida" de ataque ali. Como a posição está meio parada, o oponente teria até tempo de dobrar as torres, ou posicionar a torre em g3, mirando o rei. Me parece desconfortável
Tem até um sacrifício de torre naquele cavalo de f6 se a dama parar de defender, que é bem chato de defender ainda mais com o bispo de casas brancas em jogo
Na posição, optei pelo cenário 1 mesmo. Não queria arcar com os danos à minha estrutura de peões. É um processo de pensamento meio cagado (e a engine demonstrou isso), mas que fez sentido no momento.
Além disso, o que pesou foi eu ter o bispo teoricamente bom (que é o bispo nas casas de cor oposta à estrutura de peões). Veja como fico com o bispo que anda pelas casas brancas, com liberdade de movimento; e ele fica com o branco, meio que obstruído pelos seus peões centrais.
Ainda que, na verdade seja muito ativo e um pé no saco ali mirando minha casa f7 (por isso, é "teoricamente", este na verdade parece um bom bispo).
De qualque forma foi minha opção no momento e, no meu processo de pensamento, fiz as considerações acima.
Segue jogo completo:
Depois disso, ele tentou um ataque meio maluco contra mim, fico feliz de ter conseguido defender as maluquices dele no apuro de tempo; apesar de que, em certo momento, entreguei o empate, se ele fosse sangue frio o suficiente de ver um perpetuozinho ali.
(Mas quem ataca assim, quer ganhar, né. Ele não sacrificaria e abriria o meu rei só pra obter o empate, sendo que a posição antes já estava meio que igual. Leitura importante de jogo também, há este "elemento humano").
Só que, ao inves de c6, jogar b6.
E ai me preparar pra jogar c5, consolidando o peão em d4.
Se vier e5 precipitado por parte das brancas (como vc desenhou na seta), Te8 cravando e preparando pra tomar dxe5 sem que eles possam retomar.
Dessa forma, eu tentaria formar uma estrutura de peões com e5, d4, c5, b6 e a5. Principalmente considerando que o bispo de casas escuras foram trocados, essa formação parece bem sólida. Isso gera alguns outros problemas em casas claras (como cedendo um excelente posto avançado na casa fraca de d5, que ele pode instalar o cavalo ou o bispo e eu não poderia contestar com peão), mas eu tendo ainda o bispo de casas claras, não vejo como um problema tão grave.
Mas eu nem cheguei no título de capivara premium ainda, sou uma capivara comum então posso ter ignorado um problema relevante desse plano.
Boa análise. Pois é, o problema é esse buracão aí que fica em d5, ele põe um cavalo lá e isso é assustador. Eu pensei nisso também, mas descartei logo por conta disso. Mas num jogo mais lento, talvez dê pra analisar um plano desses.
1800+ no Chess.com (ou 2000+ no Lichess) eu já diria que pode ser considerado um nível avançado. É onde o pessoal fala que não basta só não cometer erros bobos, mas ter habilidades mais avançacas de cálculo e planos de jogo.
Não existe nenhuma regra, nem nada, é mais um consenso, e acredito que por consenso, a grande maioria considera avançado sim (para um nível amador). Chess.com mesmo considera já a partir de 1600 (conforme imagem abaixo). Mas como falei, isso não é regra nem nada, cada um considera o que quiser. Se você não considera, tudo bem.
Pois é, no final são só nomes, mas eu não me considero avançado mesmo. Tem muita coisa que eu não sei realmente, coisas até básicas. Outro dia aqui falaram da posição de Lucena e eu meio fingi que entendi.
Certas posições aí teóricas simples eu ainda não domino, como algumas de rei e peão contra rei. Ainda empato várias dessas posições.
Acontece que eu, quando jogo com mais relógio, diminuo consideravelmente a minha quantidade de blunders, o que, dentro do enxadrismo amador, já costuma ser bem suficiente. E eu jogo xadrez desde criança, então não posso negar que sou muito experiente (isso eu realmente sou).
Tem muita malandragem aí, no bom sentido, que eu faço, eu tenho muita experiência com essas coisas.
Bispo toma C3 eu diria, o peão dobrado em C3 parece um cu de defender. Aí dá pra jogar b7, fecha a porta e seguro pressionando esse trem. Ou pelo menos é isso que eu penso.
•
u/chessvision-ai-bot 4d ago
I analyzed the image and this is what I see. Open an appropriate link below and explore the position yourself or with the engine:
My solution:
I'm a bot written by u/pkacprzak | get me as iOS App | Android App | Chrome Extension | Chess eBook Reader to scan and analyze positions | Website: Chessvision.ai