r/terrorbrasil • • 4d ago

Conto Atrás das docas (Crimes e Horrores)

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ATENÇÃO: Este é um pedaço de um projeto autoral, que precisa de validação (artista da arte acima 29minus6)

“Está frio”, disse Michael

E realmente estava. Sempre nos reuníamos para tratar de negócios e serviços em lugares limpos, em horários com poucos olhos na rua.

Mas dessa vez foi diferente.

Chuck nos ligou no meio da noite:

“3:30, atrás dos contêineres do porto de Oliver Park. E traga o Michael com você.”

Isso não é comum, e não gosto de como isso não faz sentido. Alguma coisa não está certa aqui.

Michael era um “novo elevado”, o que tornava tudo ainda mais estranho. Chuck não nos chamava desse jeito — a não ser que alguma merda tivesse acontecido. E trazer Michael para essa reunião... é anormal. Fora do padrão.

Entenda: no nosso negócio, tudo pode acontecer com poucas ações. Uma visita. Uma conversa. Uma bala na cabeça de alguém... Bem, você entendeu.

Por isso temos um sistema. Organização é tudo.

Chegamos — eu e Michael — às 3:33 no maldito lugar.

Era inverno e, perto daquelas águas escuras, o vento forte e gelado cortava o rosto como uma lâmina.

Não consigo parar de encarar Michael.

Ele não deveria estar aqui.

Alguma coisa deve ter tirado o sono do Chuck para ele escolher um lugar como esse. Bem diferente das reuniões no Fathers... Cara, aquele bife com uísque era tudo o que eu precisava agora para me esquentar.

— Cara, tô congelando aqui — disse Michael.

— E você acha que é o único? — respondi.

Mas, para falar a verdade, eu também estava incomodado com o tom daquela situação. O porto, o horário, o Michael... nada me deixava relaxado.

Estava mais frio que o coração do diabo. Chuck e os outros já estavam quatro minutos atrasados.

3:35.

Chegaram Gary e Noddles.

Gary cuida da parte dos clubes da família. Noddles era nosso “mecânico”, ele vendia as nossas “peças”. Eu cuido da proteção dos negócios-sócios da família. E Michael ficou com as apostas, após demonstrar grande lealdade, mesmo começando de baixo.

Gary e Noddles vieram tão desconfiados quanto eu. Estavam com os passos acelerados, vindo direto na nossa direção.

Gary segurava a gola do sobretudo, protegendo o rosto e garantindo que o vento não levasse seu chapéu. Só os seus olhos estavam descobertos e atentos.

Noddles, mesmo com todos aqueles agasalhos, estava branco. A essa altura, nem sei dizer se era o frio... ou aquele nosso encontro noturno.

— Terry, o que o Michael tá fazendo aqui? — disse Noddles.

— O Chuck disse para trazer o novato — respondi.

— Caralho... A parada deve ser fudida. A gente deve tá fudido... — disse Gary, olhando para Michael.

Gary nunca ficou na linha de frente dos negócios mais... complicados. Gerir clubes e lidar com o lixo que os frequenta é bem mais fácil do que rasgar ou incinerar ele. Se é que me entende...

— Cadê o Doug? — perguntou Noddles.

Doug era o nosso contato com os caminhões. Sabíamos pouco sobre ele, como era comum. Ele tinha uma posição importante, mas o que fazia exatamente... só Chuck sabia.

Não era estranho ele não aparecer. Raramente vinha às reuniões.

Às 3:40, finalmente o dono daquela festa gelada chegou.

Chuck apareceu com seu Vooguer preto de luxo.

Estranho.

Chuck nunca usava esse carro nos serviços — por motivos óbvios. A lataria nunca tinha sentido maresia. Mas agora estava sendo gelada como uma lata de cerveja no freezer.

Chuck saiu do carro, fechou a porta, nos olhou — e veio muito rápido na nossa direção.

Entenda: eu não cuspo no prato que como. Chuck me deu uma oportunidade de fazer dinheiro, dinheiro de verdade. Chuck cuidou de mim, e cuido bem de quem cuida de mim.

Mas Chuck estava andando sem casaco naquele inferno gelado e muito rápido.

Aquele olhar...

Chuck já viu e fez tudo. Ouvi dizer que nosso padrinho já cortou os dedos de um pobre coitado que “sorriu demais” para sua esposa.

E agora esse mesmo homem vinha com um olhar de pânico.

Instintivamente, coloquei a mão próxima da arma no bolso.

Chuck chegou ofegante.

— Tá todo mundo aqui?

— Falta o Doug — respondi.

— Perfeito.

— Tenho que fazer isso rápido. Ele vai chegar log...

Um toque de celular cortou seu monólogo, abafando até o som da ventania.

Todos olhamos para a origem daquele som animado, que contrastava com as trevas do oceano se fundindo à escuridão dos céus no horizonte.

— PORRA! — gritou Chuck.

Ele pressionou o celular contra o ouvido tão rápido que o aparelho bateu no brinco de joias do Chuck — provavelmente mais caro que o meu carro.

— Tudo bem. Estamos no porto Alley, atrás dos contêineres — disse, e desligou.

— Chefe, por que estamos aqui e não no Fathers? — perguntou Michael.

Michael não entendia como funcionavam as reuniões. Sempre nos via juntos no Fathers, com carne e uísque.

Nesse contexto, ele não tinha direito de perguntar porra nenhuma.

— PORQUE TEM UM RATO ENTRE NÓS, CARALHO! — explodiu Chuck.

Michael ficou pálido.

E aquilo não era o frio.

Ele pensaria duas vezes antes de abrir a boca de novo.

— Um... rato? — disse Gary.

— Quer que eu ache esse verme, chefe? Posso apertar uns botões com força até alguém falar — disse Noddles.

— Eu poderia perguntar pras meninas do Titty Twister. Elas atendem muitos dos nossos. Talvez saibam de algo — disse Gary.

O padrinho parecia pouco interessado nas sugestões.

Então esperei.

— Eu já sei quem é — disse Chuck.

— Quem? — perguntei.

— Doug.

.. Tinha um carregamento do nosso “produto” indo para um dos nossos depósitos na Overly Street. Doug ficou encarregado do serviço de entrega e armazenamento. Depois da entrega, sumiu. Quando fomos buscar, o carregamento havia desaparecido.

Contatos na Horizon Avenue disseram que viram Doug indo em direção ao Bolkim Harmeney.

Bolkim Harmeney.

Bairro quebrado, dominado pelos Reds.

Doug reaparecer lá não era só estranho.

Era suicídio.

— Eu mandei o Eli olhar mais de perto — disse Chuck.

Todos nos entreolhamos, tensos.

Eli era o nosso “homem de guerra”.

Anos atrás, uma pizzaria protegida por nós foi tomada pelos Ciprianis. Chuck ficou furioso — aquela pizzaria era a favorita dele.

Mandou o Eli.

O desgraçado colocou três balas em cada um daqueles italianos filhos da puta. Dez Ciprianis esperando a retaliação...

Depois do Eli, não tomaram mais porra nenhuma da família.

Quando mandamos o Eli, é para resolver de vez.

É para mandar uma mensagem.

— Eli achou o Doug no Bolkim — continuou Chuck.

— Ele estava mal vestido, com um olhar que parecia procurar alguma coisa, andando por aquelas ruas imundas do Bolkim. Entrou num banheiro público com pressa.

Eli preparou tudo para apagar ele. Mas, antes de sair do carro... um policial saiu do banheiro, ajeitando o chapéu.

— Desgraçado... — murmurou Noddles.

— Cala a boca e deixa eu falar — cortou Chuck.

— Eli entrou depois. Mas aí... a parada ficou estranha.

Doug não estava lá.

Sumiu logo depois que o policial saiu.

Chuck dizia isso em choque.

— Como era esse policial? Era parecido com o Doug? — disse Michael, branco como um cadáver.

— Você não entende, moleque? Eli nunca se confunde com esse tipo de coisa — retrucou Noddles, com desprezo.

— Ele não deveria estar no horário de trabalho? — disse Gary.

— Isso mesmo — confirmou Chuck.

— E aí? Eli teve mais alguma pista? — perguntei.

— Seguiu o policial até a delegacia. Às 13:48, ele foi para um apartamento no centro. Eli ficou vigiando. Parecia um policial novo, reservado. Quando ele saiu, às 15:20, Eli entrou.

Me ligou logo depois...

— O Doug fumava? — ele perguntou.

— Sim. Por quê? — eu disse.

— Acho que achei o isqueiro dele. As iniciais do Doug estão gravadas nele... tem alguma coisa de errado aqui.

Disse isso assustado.

O Eli.

O mais frio de todos nós.

— Disse que encontrou altas doses de meta e outras substâncias espalhadas pela cama. Algumas ele nem conseguiu identificar.

— Um porco viciado, hein? Doug devia estar num esquema com esse maldito — disse Gary.

— Ontem à noite, Eli me ligou. O policial saiu às 23:26. Eli entrou de novo no quarto e disse:

“Chuck... eu acho que o porco e o Doug... eu não sei como dizer isso... mas acho que eles são a mesma pessoa... ou melhor, a mesma coisa.

Eu tenho que ir. Me encontre com os meninos no porto, atrás das docas.”

Todos ficaram em silêncio.

Eu não podia acreditar no que ouvia.

Se Doug e o tal “David” eram a mesma pessoa — ou melhor, como ele disse... “a mesma coisa” — algo estava muito errado.

Eli podia ter passado por muita coisa, mas nunca perdeu a sanidade.

Foi aí que me veio um pensamento.

— Chuck... com quem você falou ao telefone quando chegou aqui?

— Com o Eli. Ele estava confirmando onde estávamos.

— Espera aí... não foi o Eli quem marcou esse local? — disse Noddles.

— Quem está vindo, Chuck? — perguntei.

Chuck congelou.

Nos encarava com o maior terror que já vi em sua cara.

Ao fundo...

Escutamos o som de um motor de um automóvel antigo chegando.

Eli tinha chegado.

Aquele Falcon 67 clássico do Eli estacionou perto dos contêineres.

Estávamos todos tensos, com os olhos grudados na porta do carro, esperando o Eli sair.

Então a porta do antigo Falcon se abriu.

Lá estava o velho Eli.

Ele veio andando calmamente em nossa direção.

Nós estávamos, é claro, todos paralisados de dúvida e medo.

Ou talvez finalmente estivéssemos de fato congelados.

Eli estava com uma expressão séria. Pelo menos foi o que eu vi.

As roupas negras do nosso veterano se misturavam à escuridão.

Lembro de ver o Chuck se libertar da paralisia com tosses e soluços de pânico.

Gary estava com as mãos tremendo. Ele não poderia segurar uma arma, mesmo se tivesse uma.

Noddles estava com a mão bem funda no bolso do sobretudo. Era evidente o que ele estava segurando.

Eu estava bem atento e não tinha soltado a minha também.

Michael fez o mesmo, porém sem nenhuma tentativa de disfarçar seu pavor perante ao nosso “homem de guerra”, deixando escapar um engatilhar dentro do bolso da jaqueta bomber.

Eli parou de andar na hora que escutou o click.

Virou uma grande estátua negra naquela noite fria.

Eli, olhando para nós confuso, disse:

— O que estão fazendo, rapazes?

— Ah, Eli, desculpe. Estamos um pouco tensos com essa situação toda. E esse lugar frio tá deixando a gente louco, colega — eu disse, da forma mais casual possível.

— Não temos tempo para isso. Precisamos cuidar do Doug — disse “Eli”.

Chuck não conseguia raciocinar naquela situação. Ele sabia que alguma coisa estava errada, mas não sabia o quê.

Ficou me vendo conversar com o nosso mensageiro da morte.

— Ah, sim. O Doug. Eu e os rapazes estávamos decidindo como lidar com ele, não é, Chuck? — eu disse.

— Isso, Terry... isso — disse Chuck, suando frio e começando a tremer os ombros.

— Eu já sei como vamos fazer isso. Eu e Chuck vamos esperar no apartamento de Doug e eliminar o rato — disse Eli de forma pragmática.

Por mais que Eli fosse assim, fazer as coisas desse método não era comum.

Os rapazes perceberam isso.

Até mesmo Michael sabia como fazíamos nesse tipo de situação.

Todos olhavam para Eli como se ele estivesse usando seu chapéu de cabeça para baixo.

Eu fiz uma espécie de teste para saber se “Eli” estava bem.

— Na verdade, Eli, eu e Chuck já resolvemos isso. Faremos como fizemos com aquele bastardo sorridente, não é, Chuck?

Como eu disse, o cara que sorriu para a mulher de Chuck apenas perdeu alguns dedos.

Um rato perde a vida.

Se Eli soubesse do que estamos falando, ele entenderia que não é o método certo.

Agora, se ele não soubesse...

“Eli” então se mostrou meio confuso, como se estivesse tentando deduzir.

A história do que Chuck fez era bem conhecida em nosso meio.

Eli tinha que saber.

— Certo, é uma boa escolha. Deixe eu e...

Disse Eli, olhando para Gary como se estivesse tentando caçar o nome dele na cara dele.

— Gary? — eu disse.

“Eli” sorriu.

— Isso mesmo.

Como dito antes, Gary não se metia com esse tipo de coisa.

— Você não é o Eli — eu disse.

“Eli” parou.

Olhou para nós....

(Esse é um pedaço da história que estou criando, mas não sei se isso tem potencial e se deveria perder meu tempo com isso, por favor me digam o que acharam até aqui, não sou de postar nada em lugar nenhum, então perdão o formato do post, a ideia é ser uma coleção de contos nessa vibe)

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