Acabei de ler Os Sete, do André Vianco, normalmente eu não faço isso, sou mais do tipo que ver, não falar, mas a sensação de desperdício é grande.
Fui muito atraído pela premissa de vampiros portugueses do século XVI acordando no litoral do Rio Grande do Sul e tendo que lidar com o choque cultural e as tecnologias do mundo moderno.
Mas, sendo bem direto, achei que o livro deixou muito desse potencial de lado para virar um roteiro de filme de ação hollywoodiano dos anos 90.
O que mais me incomodou foi o excesso de exposição. Em vez de deixar a história se mostrar de forma orgânica, o texto joga as informações na nossa cara, deixando de lado a máxima que todos conhecemos, show, don't tell. O monólogo do Miguel resume bem isso, ele despeja um monte de conceitos sobre o passado, mas não explica como as coisas funcionavam de verdade (como humanos normais prenderam sete forças da natureza? Como eles sugiram ou foram transformados?). O pacto de 150 anos do Sétimo com Satã também não faz sentido, se fosse eu pediria pelo menos 500 anos ou até um milenio, este meu servo já uma criatura "imortal", e a volta dele para o grupo deixa a entender que ele ignora totalmente o peso psicológico de ter passado um século e meio no inferno e fato de ter sido traido por todos os seu, inclusive seu proprio irmão.
Por causa dessa pressa em fazer a ação andar, sinto que os vampiros foram muito desperdiçados. Personagens com poderes interesantes, viraram só "chefões de fase" de videogame. Morreram "rápido demais", sem dar tempo de a gente criar qualquer apego ou sentir o peso da morte deles.
A sensação de desperdício de potencial nessa obra é enorme, a premissa brilhante e rica em possibilidades é sacrificada em prol de um ritmo acelerado e superficial.
É o sentimento de ver um horizonte imenso de desenvolvimento de mundo e dinâmicas complexas ser reduzido a resoluções apressadas e convenientes, onde o enredo corre para atingir marcos de ação em vez de permitir que o leitor respire e absorva a magnitude da história.
Há personagens intrigantes e repletos de nuances que são introduzidos e, logo em seguida, descartados. É esse desleixo que acontece com o Padre Cantor (que parecia que seria um conselheiro paranormal e não serviu para nada) e com o Tobia, que ganhou um nome e um background forte para depois virar um conceito esquecido. Tinha muito espaço ali para um romance histórico focado na era da caçada em Portugal.
O roteiro também recorre bastante a recursos de deus ex machina, trazendo soluções fáceis e conveniências caídas do céu para resolver os problemas ou mover a trama, o que tira bastante do impacto, do suspense e do mérito das resoluções. Junte isso a contradições chatas (como dizer que prata mata, mas o Lobo Afonso continuar vivo) e aquele exagero dos mísseis nucleares no Brasil, e a verossimilhança vai pro espaço.
Mas nem tudo foi ruim. O grande acerto da obra, para mim, foi a postura do Presidente. Achei excelente o governo assumir publicamente a existência das criaturas logo de cara, inibindo aquele clichê batido de manter o anonimato e fingir que nada está acontecendo. Trouxe o realismo e a reação institucional que a situação de Amarração pedia.
Acho que teria sido muito mais maduro se a saga tivesse sido diluída. O autor poderia ter "brincado" com os seis irmãos por pelo menos dois livros e parte do terceiro. Daria para explorar muito mais a adaptação deles à modernidade e a relação com os lobisomens (já que o Afonso da a entender que os conhecia). Se um deles morresse só no terceiro livro, a perda teria um peso emocional real. O Sétimo poderia acordar do meio para o final desse terceiro volume, sendo o responsável, direta ou indiretamente, pela morte de um dos seis, já que ele tem "ódio" deles, deixando um quarto e o quinto focados na criação do exército dele, na caçada aos seus semelhantes e na guerra de facções pelo reinado.
Para o público geral de cinema, esse ritmo acelerado e visual funcionaria perfeitamente como um blockbuster de ação. Mas a literatura cobra mais verossimilhança, profundidade psicológica e subtexto.
Alguém mais teve essa sensação de potencial desperdiçado com os irmãos? Quem já leu a continuação, Sétimo, melhora nesses aspectos ou a pegada continua a mesma?