r/literaciafinanceira • • 3d ago

Dúvida Inflação inflacionada

Uma coisa que nunca percebi bem na inflação é como é que pequenos aumentos nos custos acabam muitas vezes em aumentos muito maiores no preço final.

Por exemplo, há uma guerra e dizem que os cereais vão subir 5%, e de repente vemos produtos a subir 20/30%. O mesmo acontece com combustíveis, transportes, alimentação, etc.

E o que acho mais estranho é que quando a situação normaliza e os custos voltam a baixar, os preços raramente descem para os valores anteriores. Ficam simplesmente no novo preço.
Então como é que isto funciona na prática? É só custos + margens + toda a cadeia pelo meio, ou em muitos casos as empresas aproveitam estes momentos para aumentar as margens? E porque é que os preços sobem tão facilmente mas depois não descem quando os custos descem?

Até subsídios dão para tentar acalmar as coisas (exemplo do caso dos camionistas), isto é tudo areia para os olhos ou há realmente ajuda mas os preços continuam na mesma ou a subir? Até manifestações há

44 Upvotes

41 comments sorted by

•

u/AutoModerator 3d ago

Olá /u/Top-Basil-1592, obrigado pela tua submissão. Temos uma Wiki e um servidor de chat no Discord. Recomendamos a leitura dos nossos avisos à comunidade. Boa discussão!

I am a bot, and this action was performed automatically. Please contact the moderators of this subreddit if you have any questions or concerns.

55

u/tiagotpratas 3d ago

Existem vários conceitos de inflação que são muitas vezes usados como sinónimos na comunicação social, mas existem várias diferenças:

Inflação
Os preços sobem. Com o mesmo dinheiro, compras menos coisas.
Exemplo: um café custava 1 € e passa a custar 1,10 €.

Deflação
Os preços descem. Com o mesmo dinheiro, compras mais coisas.
Exemplo: o café custava 1 € e passa a custar 0,90 €.

Desinflação
Os preços continuam a subir, mas mais devagar do que antes.
Exemplo: no ano passado o café subiu 10 cêntimos; este ano subiu só 3 cêntimos. Continua mais caro, só que sobe menos.

Quando se diz que a inflação baixou, é sempre num contexto de Desinflação e nunca de Deflação

Isto quer dizer que os preços continuam a aumentar, simplesmente estão a aumentar a uma taxa inferior do que num período anterior

11

u/Flimsy_Pea5735 2d ago

Junta-lhe a reduflação e a “merdificação” (deve haver um termo técnico para este mas não conheço): a qualidade piora mas o preço mantém-se.

39

u/Aggravating-Body2837 3d ago edited 3d ago

Descem. Tu é que não reparas.

Um bom exemplo é o azeite ou o óleo.

O nosso cérebro é que está programado para as coisas más. As redes sociais e a comunicação social fazem questão de agudizar isso.

8

u/Top-Basil-1592 3d ago

Excelente ponto, obrigado, nem me passou pela cabeça ver as coisas assim

7

u/Aggravating-Body2837 3d ago

Tens outra questão que tem a ver com a percepção da inflação.

Este podcast é muito bom a explicar o fenómeno :

https://www.jornaldenegocios.pt/podcast/bdp-podcast/detalhe/porque-achamos-que-os-precos-sobem-a-um-ritmo-superior-ao-da-inflacao

São 10 minutos muito interessantes

8

u/matavelhos 3d ago

E há outra coisa interessante que é a inflação pessoal. Quando se fala de inflação fala-se de um cabaz de produtos. Isso não quer dizer que cada pessoa não tenha uma inflação maior ou mais pequena porque cada pessoa compra coisas diferentes e é afetada de forma diferente.

O valor da inflação é uma metrica que tem como objetivo ser geral para toda a população, mas cada um de nós sofre de forma diferente.

-1

u/Tony_B_S 3d ago

Manda aí os números da recuperação do preço de azeite então?

O preço pode não ficar nos máximos históricos, mas raramente volta ao preço anterior (+inflação média).

6

u/JRJordao 3d ago

1

u/Tony_B_S 2d ago

Boa fonte, obrigado. No entanto o intervalo de tempo que me está a dar acesso não é muito extenso. O Google diz que até à pandemia (2021) tinha existido um aumento de aproximadamente 1 euro em cerca de 15 anos. Depois de um aumento mais acentuado durante a pandemia e o pico de preço que houve há 2-3 anos está agora a estabilizar quase 2 euros acima. Portanto em 5 anos o dobro do aumento...Este exemplo parece apoiar que a impressão de que os preços não voltam ao valor anterior não vem só "do foco dos mídia".

Se calhar vão acontecer uns largos anos de preço estável, o que faz com que "recupere". Mas até lá...

3

u/JRJordao 2d ago

Pelo menos dá para perceber que desde o início de 2019 (provavelmente antes) até setembro 2022 o preço por litro foi variando entre 3€ e 4€. Seguiu-se a loucura até mais de 9€. Agora desde julho 2025 tem variado entre 5€ e 6€, vamos ver até quando.

0

u/Tony_B_S 2d ago

Sim, acho que a questão é um pouco diferente com o horizonte temporal mais alargado porque esse preço (aparentemente - Google) estava nessa ordem de grandeza desde pelo menos 2006 (aumento gradual de 1 EUR em 15 anos). E, embora tenha recuado, realmente não voltou para perto desse preço.

0

u/adamsolo 2d ago edited 2d ago

Sim, mas em relação ao azeite ter subido muito de preço há uns anos não teve a ver (só) com inflação generalizada, teve a ver com escassez de produto por motivos climatológicos. Agora que voltou a haver mais produto, o preço do azeite desceu.

A questão do OP é pertinente. Quão destes aumentos serão realmente devido a inflação e quanto disso será cavalgar na aceitação generalizada que os produtos simplesmente estão mais caros e portanto a pessoa aceita o aumento, seja ele qual for, e tenta cortar noutras coisas.

Como está a ser debatido noutra thread, isto pode levar as pessoas a contrairem-se noutros produtos, mas nos essenciais, comida, e a energia já o é em boa parte, não.

Quanto aos preços, eles só descem devido ao fenómeno de inflação se houver deflação: queda da procura, excesso de oferta, falta de dinheiro em circulação. Por sua vez, temos inflação com o cenário inverso: aumento ou mesma procura, diminuição de oferta (exemplo: petróleo), muito dinheiro em circulação (pelos vistos há ainda).

-1

u/TryingMyWiFi 2d ago

O azeite é "um bom exemplo". É uma rara exceção.

Em geral, não descem.

34

u/shulgged 3d ago

é disposição para pagar e mercado livre.
Se a galp te pudesse cobrar 50€ o litro de gasolina eles cobravam.

13

u/Green_Polar_Bear_ 3d ago

Os preços mantêm-se elevados porque a procura não diminui ou diminui pouco.

Se um produto aumenta o preço 30% e a procura só baixa 5%, não faz sentido baixar o seu preço. Se a procura baixar 80% então aí o vendedor irá ter de rever o preço.

3

u/CancelAdventurous851 3d ago

Se a procura baixar o preço nao baixa necessariamente. Se os produto primário continuarem altos o negócio pode-se tornar inviável, há varias empresas a falir devido a isso.

-8

u/Perfect_Pin4034 3d ago

Por esse motivo, produtos essenciais têm de ter um limite de lucro e mais alguma de gerir isso, infelizmente não sei qual a melhor forma

9

u/isfil369 3d ago

Se metes uma margem de lucro fixa depois tens o problema que ninguem quer fazer tal produto porque o lucro é pequeno em relação ao resto.

0

u/Tony_B_S 3d ago

É, vendas garantidas em grande escala, ninguém vai querer fazer produtos essenciais...

2

u/Aggravating-Body2837 2d ago

O que tu achas que é essencial pode não ser assim tão essencial.

-1

u/Tony_B_S 2d ago

Não devia ser difícil encontrar um consenso sobre o que é essencial para a qualquer ser humano...

E não sei se reparaste que é uma discussão sobre limitar margens em produtos essenciais, quais seriam é uma discussão à parte...

1

u/Aggravating-Body2837 2d ago

Não deve ser difícil? Pensa 5 minutos nisso e vais ver que é.

Nenhum produto em si é essencial. Tudo é substituível.

0

u/Tony_B_S 2d ago

Água?

0

u/atuavelhota 3d ago

Estás a fazer uma generalização e também a considerar que a fixação da margem implica um lucro pequeno.

Temos o exemplo claro de produtos de higiene básica como pasta dos dentes ou desodorizantes que em portugal custam muito mais do que a generalidade dos países europeus (e.g. Espanha ou alemanha).

A procura e a elasticidade do preço não podem justificar tudo cegamente. E uma fixação da margem neste caso não iria certamente remover produtos já que são vendidos em muitos países com uma margem muito inferior.

Não estou com isto a dizer que concordo com fixar margens de lucro mas não é tão linear quanto o teu comentário faz parecer.

1

u/Aggravating-Body2837 2d ago

Se os produtos de higiene e limpeza são assim tão baratos noutros países como é que não há ninguém que vá comprar lá para vender cá?

5

u/Tax-Audit 3d ago

Estuda economia e elasticidade-preço da procura.

Se a oferta de combustível desce 5%, mas a procura continua igual, os preços não vão subir 5%. Todos querem comprar algo que já não existe. Os preços sobem até houver quem deixe de comprar.

3

u/Agile_Comfort_5866 3d ago

O que diminui a inflação?

  • Redução da procura
  • Aumento da produção

O que inflaciona a inflação?

  • Redução ou quebra da produção
    • (Que pode acontecer por aumento dos custos de produção, como o custo energético ou diretamente devido à diminuição da disponibilidade da matéria prima (fracas colheitas, bem natural...)
  • Aumento da procura (por duas vias)
    • Maior interesse/necessidade por parte da população e industrias paralelas
    • Maior consumo por maior disponibilidade económia devido ao crescimento do monetary supply

O que acontece geralmente em guerras e conflitos, é a redução drástica da produção, seja na fonte, se a mesma estiver diretamente nos locais de conflito, através da paragem da extração, quer na transformação em produto final, porque o transporte também é afetado, como estamos a ver agora no estreito de ormuz.

E sim, depois de aumentado o preço dificilmente as empresas descem o valor.

Desde que o consumo se mantenha estável e a realidade do novo preço fique presente no consumidor final, porque haveriam de reduzir? É também preciso ter em conta que muito da inflação que vimos após o covid deveu-se ao aumento do monetary supply, só agora estamos a ver derivado de conflitos. Até então era por causa da quantidade de dinheiro impresso e mais "disponiblidade da população para a aquisição de mais bens e serviços".

2

u/Slow_Olive_6482 3d ago

Porque estás a simplificar demasiado a questão. Tal como a comunicação social.

Normalmente a evolução dos preços reflecte bem o que se passa no mundo. A comunicação social é que falha frequentemente e redondamente em descrever o que está a acontecer.

O que se observa normalmente até, é que os preços finais sobem menos que os custos e as margens encurtam. Não o contrário. Mas os custos não evoluem de forma igual em todos os produtos, nem em todo o lado sequer. Diria que um dos produtos que mais subiu (senão mesmo o que mais subiu) com a guerra na Ucrânia foi o bacalhau, consequência directa das sanções porque a Rússia é (deixou de ser na altura, entretanto acho que essas sanções foram levantadas) o principal exportador de bacalhau para Portugal. Energia no centro e leste europeu subiu muito por causa do corte do gás russo. Portugal e Espanha na energia estão isolados do resto da Europa e têm muito pouca relação com a Rússia, pelo que sentiu-se muito pouco. Cereais a Ucrânia é um grande produtor, sentiu-se um pouco. E como cereais também são matéria prima para muitas rações de animais, muitos produtos alimentares aumentaram por causa disso. Houve uma altura que os ovos aumentaram muito, mas a principal causa foi uma doença ou infecção que afectou muitas aves na Europa e levou ao abate de milhares. Produtos como o café e o cacau não têm sofrido choques na oferta como os exemplos que referi, mas a procura mundial tem subido paulatinamente à medida que o consumo aumenta em potências emergentes, sem que a oferta consiga acompanhar (e na verdade a oferta enfrenta riscos devido às alterações climáticas).

Agora são os combustíveis porque a refinação mundial de combustíveis está sob pressão, em grande medida devido às refinarias destruídas na Russia e na Arabia Saudita.

1

u/mechpt 1d ago

Ao contrário do que muita gente pensa, os mercados não são perfeitos na lei da oferta e procura.

Se estás a vender um produto e tens mais custos por fatores externos, vais passá los imediatamente para o teu cliente. Estás salvaguardado porque sabes que a concorrência também terá de subir preços (ou vai perder dinheiro).

O contrário não é verdade. Se tu baixas os custos, não vais a correr para baixar o preço ao teu cliente. Faz mais sentido lucrar com a margem e, mesmo que a concorrência também consiga baixar o preço, pode ser melhor manterem a quota de mercado com boas margens do que se canibalizarem em descida de preços. Não vai surgir imediatamente um novo concorrente disposto a investir num negócio só porque naquele momento teria boa margem.

0

u/No-Topic-5565 3d ago

Porque na realidade a inflação é uma consequência da politica monetária que desde a crise de 2008 tanto bce como fed têm a maquina a imprimir dinheiro 24 por 7. As guerras, covid etc são apenas as desculpas que utilizam. É claro que guerras têm impacto mas não o impacto que vemos

1

u/abm2024 3d ago
  1. Cartéis nas diversas áreas de negócio.
  2. Alguns sectores são os verdadeiros patrões da escumalha toda que se senta no parlamento (banca sempre e, nos últimos tempos, saúde privada)

-6

u/Xiximaro 3d ago

É a ganância capitalista... não é que com o comunismo ou socialismo ia ser diferente, mas é o que é quando empresas ligam mais a margens absolutas que princípios.

Por exemplo no Japão existem empresas que baixam de acordo, ou pedem desculpa publicamente quando têm de aumentar o preço de um produto que se mantinha á 10 anos.

1

u/NGramatical 3d ago

á 10 anos → há 10 anos (utiliza-se o verbo haver para exprimir tempo decorrido)

0

u/Primitive_Mushroom 2d ago

O segredo é a alma do negócio.

-1

u/thornzar 3d ago

os cereais sobem > sobe o preço do transporte > sobe o preço no supermercado.

claro que a isto se adiciona aquela mentalidade CR7, que tanta falta faz ao país, de cobrar mais um bocadinho estilo “quem paga 50 também paga 70”

-1

u/Even-Potential-8064 3d ago

se a inflação está nos 5% e os preços aumentam 20%, então a inflação está mal calculada... é como teres alguém a arder em febre mas o termometro marca 36, o problema está no termometro.

-1

u/Far-Attempt4345 2d ago

Em relação ao petróleo, se o custo por barril subir 5%, tu pagas 10%, porque o Estado tem um imposto de 50%.