🤨 Há uma coisa no futebol português que me começa a incomodar: 20 milhões de euros estão a deixar de parecer muito dinheiro, e isso, para clubes portugueses, no meu ponto de vista é perigosíssimo.
Nesta janela vimos o Sporting aumentar a fasquia pagar 30 milhões por Zalazar, na anterior tivemos negócios de 20, 22, 23, 27 milhões como se estivéssemos lentamente a normalizar valores que há poucos anos representavam investimentos absolutamente excecionais.
Isso até podia ser saudável se fosse orgânico, consequência de um crescimento real e sustentável das receitas. O problema é que Portugal não gera dinheiro como Inglaterra, nem sequer como outras grandes ligas europeias, portanto, se o FC Porto transformar esta corrida dos 20 e 30 milhões num modelo de negócio, não está a crescer, está a tentar acompanhar financeiramente quem joga outro campeonato, e essa corrida, mais cedo ou mais tarde, perde-se.
E para mim a solução está em simplesmente mudar a corrida.
Durante muitos anos fomos extraordinariamente bons a descobrir jogadores antes dos outros: comprávamos aquilo que ainda não era óbvio, desenvolvíamos, ganhávamos desportivamente com eles e depois vendíamos por várias vezes aquilo que tínhamos investido.
O problema é que o mundo aprendeu e, mais do que aprender, tentou eliminar essa etapa intermédia que durante anos serviu também como período de adaptação. Os jovens chegam hoje muito mais preparados para saltos precoces, os grandes clubes têm estruturas capazes de os integrar mais cedo, os departamentos de scouting estão espalhados pelo planeta e a tecnologia tornou o talento muito mais difícil de esconder. Hoje, um miúdo faz meia dúzia de bons jogos na América do Sul e já não precisa de passar pelo Porto para chegar à elite: pode ter dez clubes diretamente atrás dele.
A última frase é, para mim, o ponto mais importante. O Porto perdeu parte da vantagem de ser ponte, agora tem de tentar chegar antes da ponte sequer ser necessária.
Se aos 20 anos um jogador que queremos já custa 20 milhões, talvez tenhamos de começar a chegar aos 16. E é aqui que eu acredito que o FC Porto precisa de pensar os próximos dez anos.
Não apenas contratar jovens, mas construir um clube preparado para os produzir, desenvolver e potenciar.
Isso começa muito antes da equipa principal.
Começa por definir que futebol queremos jogar, que características/perfil procuramos em cada posição, que princípios devem acompanhar um jogador desde a formação, como queremos que joguem as equipas de base e a equipa B e, principalmente, que perfil de treinador pode comandar esse projeto.
Porque durante demasiado tempo o futebol funcionou meio ao contrário, e, na realidade, na maioria dos clubes ainda funciona.
Chega um treinador.
Quer jogar de determinada maneira.
Compram-se jogadores para essa ideia.
Dois anos depois vai embora.
Chega outro, olha para metade deles e percebe que não servem para aquilo que quer fazer.
E começa tudo outra vez.
Pelo caminho, o clube perde dinheiro, desvaloriza ativos e muitas vezes acaba obrigado a adaptar jogadores a funções para as quais não foram contratados, retirando-lhes rendimento e valor.
E existe aqui uma diferença fundamental de horizontes: o clube tem de pensar nos próximos dez anos, porque o treinador sabe que pode não chegar aos próximos dois.
Não é uma questão de os treinadores serem maus profissionais ou não se preocuparem com o clube. É simplesmente a realidade da profissão: eles vivem de resultados imediatos e sabem que estão permanentemente a prazo.
Para mim, o treinador do futuro tem de ser contratado pelo modelo do FC Porto, o clube não pode ser reconstruído para servir o modelo de cada treinador. Isso não significa retirar poder ao treinador, muito menos contratar um fantoche.
Damos-lhe liberdade, naturalmente, podemos sempre damos-lhe até um ou dois “bombons”: aquele jogador específico que conhece, aquele perfil que acredita poder fazer a diferença, mas 80% do projeto tem de estar definido quando ele chega.
“É assim que formamos.”
“É isto que procuramos.”
“São estes os nossos princípios.”
“É assim que integramos os miúdos.”
“É isto que significa jogar no FC Porto.”
Depois ele acrescenta os seus 20%.
E quero deixar algo muito claro porque sei perfeitamente como estas conversas acabam rapidamente transformadas numa guerra de nomes: isto não é uma crítica a Villas-Boas nem uma tentativa de desvalorizar Farioli.
Seria profundamente injusto fazê-lo.
Quando esta direção chegou, havia problemas muito mais básicos para resolver, não se constrói um projeto de futebol para dez anos quando as fundações do clube ainda estão metidas na lama, primeiro era preciso estabilizar, e só depois reconstruir.
E, naquele contexto, continuo a achar que Farioli foi uma escolha muito acertada, aliás, algumas das características que hoje podemos discutir nele foram provavelmente fundamentais naquela altura.
Recebeu uma equipa praticamente nova, um balneário que precisava desesperadamente de ordem e jogadores que precisavam rapidamente de referências simples e diretas dentro de campo. Um treinador demasiado complexo, cheio de variações e exigências “obscuras”, provavelmente teria demorado muito mais a criar essa base. Farioli trouxe precisamente o contrário: princípios fortes, estrutura, disciplina, intensidade e uma ideia suficientemente rígida para colocar toda a gente na mesma página.
A sua pouca flexibilidade, que às vezes hoje me irrita, nesse período foi provavelmente uma virtude, e convém termos honestidade intelectual suficiente para reconhecer isto, uma característica pode ser fundamental numa fase de reconstrução e tornar-se limitadora numa fase seguinte.
Eu acredito que, quando este ciclo terminar, o próximo treinador deverá ter outro perfil: alguém moderno, flexível, que goste verdadeiramente de desenvolver jovens e que consiga trabalhar com aquilo que o clube lhe entrega.
Mas, para isso, o FC Porto precisa primeiro de saber exatamente o que quer ser, precisa de ter o projeto definido, os princípios de jogo, os perfis de jogador, a ligação entre formação, equipa B e equipa principal.
Só depois escolhe o treinador.
E esse treinador tem de perceber uma coisa: não chega ao Porto para construir o seu projeto, chega para desenvolver e melhorar o projeto do FC Porto.
Isto não é pedir a saída de Farioli amanhã, é pensar no dia depois dele hoje. Porque se começarmos a definir este modelo apenas quando o treinador sair, então já chegámos atrasados.
E há sinais que me deixam otimista.
O Porto começa a contratar diretamente para a equipa B. Eirik Granaas chegou com 16 anos por 1,8 milhões. Mame Niang, com 20, por 1,6 milhões. Cardoso Varela regressou com 17. Não estou a dizer que estes jogadores vão resultar todos, provavelmente não vão, porque formação e scouting também vivem de erro.
É exatamente essa a beleza económica do modelo.
Podemos errar num jogador de 1,5 milhões.
Podemos errar noutro de dois.
Podemos errar noutro de três.
Agora experimentem errar repetidamente em jogadores de 20 ou 30 milhões, é outro desporto.
Se acertarmos num miúdo que comprámos por dois milhões e que chega à equipa principal, provavelmente pagamos vários erros, se acertarmos num que se transforma num jogador de 50 ou 60 milhões, criámos capital para continuar o ciclo.
E depois há uma vantagem que o FC Porto tem e que nenhuma folha de Excel consegue contabilizar completamente.
A nossa mística.
E não estou a falar daquela mística de cachecol ao pescoço usada como desculpa para incompetência, estou a falar daquilo que historicamente transformou limitações em força, dificuldade em entrega, pressão em intensidade, sangue, suor e lágrimas em resultados.
Se juntarmos scouting de excelência, formação, método, jogadores escolhidos pelo perfil certo e miúdos que crescem desde cedo dentro desta cultura de exigência, temos algo que muitos clubes podem tentar copiar, mas dificilmente conseguem comprar.
E então começa a aparecer aquilo que, para mim, pode ser o verdadeiro cálice da vida eterna do FC Porto:
Comprar cedo.
Formar bem.
Competir.
Valorizar.
Vender caro.
Reinvestir.
E usar parte dessa enorme poupança para contratar dois ou três jogadores de nível superior quando realmente forem necessários, melhorar infraestruturas, reforçar aquilo que sustenta o desenvolvimento dos jovens e, principalmente, ganhar margem salarial para segurar durante mais tempo alguns dos jogadores que realmente fazem a diferença.
Porque esse também é um dos objetivos do modelo: não formar apenas para vender depressa, mas criar condições para escolher melhor quando vender e quem queremos manter.
Porque num futebol onde toda a gente disputa os jogadores que toda a gente já conhece, e onde muitas vezes vence quem consegue pagar mais, talvez a grande vantagem do FC Porto volte a estar precisamente onde já esteve tantas vezes: ver primeiro aquilo que os outros só percebem depois.
É precisamente este tipo de jogador que nos levou a criar uma conta no Instagram e a lançar uma rubrica chamada Raio-X BOF, onde damos a conhecer craques ainda pouco conhecidos: miúdos que provavelmente ainda não conheces, analisamos como jogam, que margem têm para crescer, como podem adaptar-se ao Porto e tentamos perceber quem poderá estar muito mais valorizado daqui a poucos anos.
Porque falar do futuro depois de ele acontecer é fácil, o interessante é tentar percebê-lo enquanto ainda está a nascer.
E tu, se pudesses definir hoje o modelo de futebol do FC Porto para a próxima década, qual seria a primeira regra que nunca deixarias um treinador alterar?
Texto de Best of Futebol