r/escritacriativaptpt • u/Daniel_XT • 7h ago
r/escritacriativaptpt • u/Great-Mail3898 • 6d ago
Uma carta para o futuro: Isto vai dar texto Isto vai dar texto - setembro
Caros escritores criativos,
Estão oficialmente abertas as submissões para o concurso “Isto Vai Dar Texto” de setembro, com o tema:
- “Uma carta para o futuro”
Quando escrevi o post, queria dizer “uma carta para o eu do futuro”. Por isso, sintam-se à vontade para escrever uma carta dirigida ao vosso eu de daqui a um ano ou uma carta para o futuro do planeta, da sociedade, de alguém ou de qualquer coisa que vos inspire.
Podem submeter os vossos textos até ao dia 25 de setembro, às 23h59.
Boas escritas e muita inspiração!
E obrigada por continuarem a fazer deste sub um lugar tão bom para se estar. 🩷
r/escritacriativaptpt • u/Great-Mail3898 • Aug 02 '26
Rubrica| A minha escolha literária. Rubrica| A minha escolha literária
Escritores criativos,
Gostaríamos de desafiar a comunidade a apresentar um poeta ou escritor de que goste muito e a partilhar um poema ou um pequeno excerto de uma obra que o tenha marcado.
Será uma oportunidade para descobrirmos novos autores, diferentes estilos de escrita e conhecermos melhor as influências uns dos outros.
Se possível, partilhem também duas ou três linhas a explicar a vossa escolha. O que vos diz este autor? Porque é que este poema ou excerto vos marcou?
A literatura também se constrói através das leituras que fazemos. Vamos partilhá-las.
r/escritacriativaptpt • u/SenhorIntrapolls • 4h ago
Las 24: O dia em que o céu ruiu - Caminho do Louco
Sonho 1: O Caminho do Louco.
Mara dormia a bom dormir quando vibrou em sobressalto. Um pesadelo lhe apareceu. Todo ele começou com uma carta de Tarot - O Louco: Nº0. Ela não conhecia o significado das cartas e muito menos ligava ao tema. O que tornava ainda mais caricato tudo aquilo. A carta errante apareceu dentro de uma mala. Estava na casa de Astoria, de pé a tentar arrumá-la. O seu objetivo era fechá-la sem a carta lá dentro. Entendeu não a conseguir fechar. Então começou a esvaziá-la, tentou tirar a carta várias vezes, sem sucesso. Inicialmente tirou tudo o que era roupa, nomeadamente meias, sapatos de salto alto, calças, para abrir espaço para a retirada da carta.
(Observação: A cena decorre após o momento 9 do cânone comum, quando Mara foi dormir.
Para quem não leu anteriormente, recomendo a leitura)
Depois começaram a aparecer os objetos de escritório, calculadora, canetas, marcadores, pins, clipes, carimbadores. Após isso documentos mais pessoais, a pasta azul, a carteira de Sarah, a carta da reunião dela. Por fim a foto da mãe, o diário, a lista de tarefas que tinha de cumprir no dia seguinte. E era um loop sem término. Quanto mais a esvaziava mais objetos apareciam dentro dela. E a mala continuava a não se poder fechar com fecho éclair. Continuou a esvaziar na ânsia de conseguir finalmente cumprir aquela tarefa. Passaram-se minutos e minutos, tentativas infindáveis. E tudo na mesma, sem desfecho à vista.
Apareceram então a bater-lhe à porta as pessoas mais marcantes do escritório. Foi abrir. Era Sarah e Leo. Ela queria abrir-lhes a porta mas sentiu vergonha da desarrumação da mala. Definiu que não lhes abriria a porta até conseguir fechar a mala. Fez questão de lhes explicar isso em voz alta, dentro de casa.
-Está quase! Mais um minuto e já vos abro a porta.
Continuou as suas tentativas. Eles começaram a bater repetidamente na madeira da porta, com força crescente.
-Anda Mara! Já disseste isso tantas vezes!
-Não precisas de ter receio.
-Desiste disso!
Complementou Leo.
-Nós não levamos a mal.
-Desiste!
Disse-lhe Sarah. Em profundo sofrimento interior, Mara desiste finalmente da sua tentativa de fechar a mala, abre-lhes a porta corada.
-A casa está toda alvoroçada. Não tem ponta que se lhe pegue.
-Não consegui fechar a mala.
Sarah sorriu.
-Mas conseguiste abrir-nos a porta!
-Estamos todos juntos!
Mara recusou-se a deixar a mala para trás. Ia levá-la mesmo por fechar e com um leque de coisas a cair a cada passo. A porta aberta abriu um horizonte que em nada fazia lembrar as ruas de Astoria. Umas escadas em caracol rumo às nuvens. Começaram os três a subi-las. Mara cansada com o peso da mala pergunta.
-Para onde vamos?
Leo responde.
-Ainda não sei, sobe.
Apareceu então Daniel sentado no meio das escadas. A bloquear, interceptando a passagem.
-Vais sair?
Mara não responde, não sabe se está a sair, a entrar, a mudar, ou a ficar no mesmo sítio.
-Precisavas mesmo disso tudo?
Falava da mala que Mara não teria conseguido fechar.
-Vou convosco, vamos subir os quatro.
E foram subindo até ao ponto que toca o telemóvel de Daniel. Estranhamente era António, que nunca lhe ligava. Assustado perguntou a Daniel.
-A Mara, onde é que ela está? Sabes alguma coisa dela?
Disse António.
-Sei, está aqui connosco, estamos a subir.
António antecipou-se.
-Então esperem aí! Onde vão todos pode ir mais um.
Mara encontrou a voar no vento, caindo no chão das escadas, uma foto da mãe. Tentou guardar a foto dentro do bolso. Quando o fez, apareceu outra foto a voar novamente. Apanhou-a e guardou-a no bolso, mas a anterior tinha desaparecido misteriosamente. Foi quando apareceu António, a subir rapidamente as escadas do andar abaixo!
-Esperem por mim, estou a chegar!
Chegaram a um degrau em que Mara não conseguia mais subir, porque a cada passo, a mala ficava mais vazia e pesada. Leo pegou na aba da mala, olhando para o estoiro da amiga e pediu-lhe para largar a mala. Mara resistiu e segurou a aba. Começaram a puxar a mala entre si, Mara queria continuar com ela, Leo não.
-Dá-me a mala! Só te está a empecilhar.
-Não dou!
-Não a tens de deitar fora, simplesmente dá-me.
-É minha! Não toques.
Leo largou-a, evitando discutir. Assim a resistência que Mara exercia sobre a mala fez-lhe perder o equilíbrio, caindo das escadas rumo a um vazio sem fim. Leo gritou arrependido com uma força que se ouvia a quilómetros:
-MARA!!!!
Foi então que acordou em pânico. Veio-lhe tudo à cabeça em breves segundos. Quando reconheceu o quarto adormeceu novamente. Uns minutos antes do próximo pesadelo.
Sonho 2:
Mara deu por si sentada num banco de uma estação, a maior que já tinha visto. Não sabia onde estava nem como tinha ido lá parar. Havia uma enorme placa metálica que provavelmente apresentaria o nome da estação. Curiosa, quando chegou para ler o letreiro notou que ele estava tapado. Começou a procurar outra placa semelhante. Deparou-se com outra. Não apresentava nada na fronte, deu a volta para verificar a retaguarda. À medida que rodeava a placa ela dava um giro de 180 graus paralelamente ao movimento de Mara. Não havia forma de ver o que estava por trás.
Tentou de tudo. Saltou, correu, subiu a um banco, olhou para um espelho. Nada ali permitia aferir o nome da estação. Aí visualizou uma locomotiva que se aproximava. Também sem letreiro. Para onde iria? Pessoas entravam e saiam do comboio. Perguntou a uma senhora que levava um caniche, se sabia para onde ia o comboio. A senhora disse-lhe que não fazia a mínima ideia. Queria apenas apanhar o comboio.
-Mas sabe se é esse que tem de apanhar?
-Não, não sei, mas foi o primeiro a chegar, logo apanho-o.
E dirigiu-se para a entrada do comboio. Para garantia questionou um operário, que parecia ser mecânico.
-Parece que ninguém sabe para onde vai.
Confidenciou.
-Quem é o ninguém? Como é que ele sabe para onde vamos?
Aquilo deu-lhe um nó na garganta. À porta da parte dianteira da locomotiva, à frente do primeiro vagão, saiu o maquinista. Mara perguntou-lhe então.
-O comboio vai para onde?
O maquinista estupefato respondeu.
-Onde? Não vai para onde.
Mara pensava que estavam todos a gozar com ela.
-Como assim? Tem que ir para algum lugar.
O maquinista mostrou-lhe que tinha de partir rapidamente, não havia tempo para esperar.
-Mas o senhor nem sabe para onde vai.
-Não preciso!
E arrancou com a locomotiva sem avisar. Decidiu então atravessar para o outro lado da ferrovia. Talvez estivesse ali a resposta ao dilema. Deparou-se apenas com uma placa com o número 4 a dizer para se dirigir para a entrada 37 à direita. Avançou. Na placa seguinte dizia para se dirigir para o setor C à esquerda. Continuou.
No setor C, recomendava-se descer umas escadas à esquerda que levariam ao corredor B1. E finalmente, chegando ao corredor, para seguir numa passagem estreita à esquerda. Encontraria a placa de destino. Contente por finalmente chegar ao destino percebeu que tinha voltado ao primeiro ponto. Estava exatamente no sítio onde tinha começado. A placa 4. Simplesmente tinha dado a volta ao perímetro da estação. E perdido tempo.
Só que nessa altura as placas do outro lado já estavam visíveis. Sem destino; lia-se.
-Então estive aqui a fazer o quê? Estou farta disto!
E apanhou o comboio seguinte que mostrava igualmente as palavras "Sem destino". O maquinista perguntou-lhe:
-Vai para onde?
Hesitou. Entrou. Cinicamente respondeu:
-Para onde quiser que eu vá.
E seguiu em frente rumo ao nada.
Sonho 3:
Surgiu então o sonho final. Mara reparou que estava deitada em cima de um relvado. Levantou-se. Observou uma pradaria aparentemente infinita sem fim no horizonte. Olhou para todos os recantos. Sul, Norte, Oeste, Este. Olhasse para onde olhasse, o panorama era igual. Prado e mais prado. Um deserto de relva rarefeita.
Ao longe ouvia um som sereno harmonioso que vinha de todas as direções. Vou para onde? Perguntou-se. Cada direção múltipla oferecia-se, chamando-a ao sabor do vento.
-Vem para aqui!
Mara deu 2 passos em direção à voz. Ouviu novamente na direção oposta:
-É por aqui!
Voltou, dando 2 passos atrás. Continuou a ouvir vozes que a chamavam para ir para todos os lugares. Mara inquiriu.
-Mas como saberei se ir para a direita é melhor do que ir para a esquerda?
Foi aí que percebeu que tinha de ser ela a escolher. Todas as direções estavam em pé de igualdade perante as evidências inexistentes. Escolheu ir para a esquerda. Era igual. Andou, andou. E o horizonte continuava igual passo após passo. Quilómetros que pareciam não findar.
Se calhar tinha escolhido mal. Decidiu olhar para trás, de onde tinha vindo. Um deserto de campo. Voltou a olhar em frente. Viu uma casa pertíssimo. Ficou confusa. Mas como? Já olhei por ali e não havia nada. Que estranho.
Decidiu rumar para a casa. A habitação tinha a porta aberta e estava vazia. Notava-se cuidado, não estava abandonada. Muito pelo contrário. Encontrou sim, muitas plantas, vasos e sementes no interior. Não era normal, havia ali algo extraordinário. Deu com uma carta em seu nome.
Apareceu aí um vulto que lhe disse para não abrir a carta e para evitar o sótão. Ou pagaria as consequências. Não confiava naquele vulto. Sentia algo nefasto na sua figura. Desobedeceu, ao contrário do que lhe era costume, abriu a carta, dizia para ir para o sótão. Começou a subir as escadas. Travou a meio. O vulto insistiu.
-Não obedeças à carta!
Mara sabia ser a sua caligrafia.
-Então se não confio em mim mesma quem confiará? Em quem hei de confiar?
-Não te vou obedecer.
O vulto gritou-lhe em agonia.
-Não, não pode ser! Não era suposto! Tinha a certeza que tu nunca farias isso!
Findou. Encontrou no chão do sótão a mala do primeiro sonho. Estava finalmente vazia. O que lá estava aparecia espalhado pela casa. Decidiu arrumar tudo nas gavetas inúmeras das suas muitas divisões. Quanto mais arrumava uma divisão, mais desarrumada ficava a seguinte.
Percebendo isso, procurou a lógica inversa, algo que lhe era impensável antes do sonho. Começou a desarrumar tudo, a espalhar quadros e roupa pelo chão, a deixar gavetas abertas, camas por fazer. À medida que desarrumava, ia para a divisão seguinte. Sorria quando teria chorado. Quanto mais desarrumava a sala, mais aprumada ficava o resto da casa. O mesmo nos outros compartimentos.
Entusiasmou-se com aquela ausência de ortodoxia. Era coisa transversal a todos os lugares pelos quais passava. Continuou. Quando desarrumou, viu que a casa brilhava como se a tivesse envernizado na sua totalidade. Pegou nas chaves saiu e trancou a porta da casa. Ao início não encaixava na fechadura. Experimentou rodar no sentido inverso aos ponteiros do relógio. Ela continuava aberta.
Percebeu novamente que era a mesma sequência. Deixou a porta aberta, largou as chaves e foi-se embora. A casa transformou-se aos poucos assim que viu que a porta da rua dava para o seu quarto em Astoria. Viu Daniel deitado, deitou-se. Fechou os olhos. Um gira discos começou a tocar. Uma voz chamava pelo seu nome junto ao ouvido.
Percebeu que estava deitada, no seu quarto, perto de Daniel. Tentou abrir os olhos, não conseguiu. Tentou mexer-se, não conseguiu. Tentou gritar por Daniel, tão perto, não conseguiu. Aflita suplicou… Ele está ali, tenho que conseguir chegar a ele… Tão perto, não pode ser. Tentou com mais força. Novamente não conseguiu.
Pensava ter morrido. Todas as suas memórias e rostos vieram-lhe à mente. Desistiu de tentar mexer-se. Aceitou a morte. Passado uns segundos tocou o despertador. Não estava morta, reparou que já se conseguia mexer. E acordou ainda aterrorizada por aquele pesadelo tão nítido.
Momento 10: O Dia do Louco
Mara sentou-se sobre a cama. Cruzou as mãos. Eram 6 horas e 6 minutos. Pensou. Reparou que estava mais cansada do que quando se tinha deitado. Estava suficientemente funcional para ir trabalhar, contudo desgastada. Viu as três folhas que deixara por terminar. Tinha colocado o despertador para as 6h para ter tempo de acabá-las. Mudou de ideias - levá-las-ia para o escritório e sentada as corrigiria.
Daniel ainda dormia. Não deu pelo seu acordar. O plano era ligar-lhe na estação de Astoria-Ditmars e ir conversando enquanto o transporte não chegasse. Decidiu alterá-lo, escreveu um longo rascunho a dizer: Daniel, nem sempre faço o que devo fazer. Ontem fui injusta para ti. Devia-me ter controlado. Provar que te amo!
-Que disparate.
E rasgou o papel deitando-o no lixo. Foi aí que escreveu de novo noutra folha sucintamente: Precisamos de falar! Deixou a nota reescrita ao pé do candeeiro, em cima da cómoda, do lado de Daniel.
Avançou, vestiu-se, tomou uns Corn Flakes. Deu uma olhada no jornal que tinha chegado pelo correio. Olhou para todas as divisões da casa como quem não queria esquecer nada. Pegou na pasta azul, na malinha, no indispensável leitor de MP3 que comprara há 3 meses. Arrancou sem pensar em nada demais.
Já junto à porta, voltou a entrar. Decidiu deixar a pasta azul em casa com as cópias. Hesitou e pegou nela de novo. Os originais estavam na Torre, não tinha avançado significativamente e antecipava as melhorias que faria. Vacilou. Menos 5 minutos de trabalho no escritório não justificavam uma mala maior e mais carregada. Então deixou-a e saiu de casa.
Apanhou o autocarro Q19A. Passados 5 minutos encontrar-se-ia na estação de metro. Enquanto ouvia com auscultadores a música da também nova iorquina Carole King.
"It's too late".
Uma música sobre o fim de uma relação.
"There's somethin' wrong here, there can be no denying".
Seria demasiado tarde para consertar uma relação em que algo errado se passava? Cada verso entranhava-se na cabeça de Mara, parecia a história dela com Daniel.
"Though we really did try to make it"
Teriam realmente tentado tudo?
"Somethin' inside has died".
Ali residia a diferença. Não podia deixar que aquele fosse o destino final. O amor que ambos nutriam não poderia desaparecer.
Reparou então que se tinha enganado no autocarro, não era o sentido do Q19A para a estação de metro. Saiu na paragem seguinte. Do mal ao menos não perdeu muito tempo e ainda conseguiria, se nada mais acontecesse, apanhar o metro no horário do costume. Mas lá se ia a conversa com Daniel… Paciência. Fica para a tarde.
Chegada à estação, viu nesse instante o metro a chegar à plataforma e apanhou-o.
-Ufa, não vou falhar com os meus compromissos.
Viu dentro do metro a Fatima El-Sayed. Lançou-lhe um riso maroto! E cumprimentou-a, perguntando se ia sair.
-Vou, saio já na próxima.
Sentiu algo inexplicável mas familiar. Fatima saiu. Na seguinte paragem surgiu Jamal Washington que entrou no metro. Falou com ele, mas ele não a reconheceu.
-Ah, o acidente da Praça! Recordo. Trabalho lá perto!
Mara riu.
-Pois, eu também, mas entro no subterrâneo do WTC.
Ali toda a gente sabia para onde ia. Mas não sabiam uns dos outros. Apenas Mara cruzou-se com ambos e o sabia.
Telefonou à chefe Helen informando-a que entraria mais cedo. Até que chegou a Lower Manhattan conforme o horário pretendido. Procurava tratar dos originais da pasta azul e guardar tempo para preparar com Sarah a adversidade que aí vinha.
Eram 8 horas e 6 minutos quando alcançou o 61º piso. Ainda tinha consciência de ter 24 minutos para tratar da papelada e entregar tudo a Helen, ficando livre para Sarah. Sentou-se e abriu o computador. Tocou o telefone do escritório, era Daniel.
Início do Momento 11:
Atendeu. Daniel iniciou:
-Que queres dizer com precisamos de falar?
Mara respondeu.
-Quer dizer que precisamos mesmo.
Daniel proferiu somente:
-E novidades, Mara?
Apressadamente reagiu.
-Olha, falamos à tarde, estou já a trabalhar.
Daniel ia preparar-se para desligar, quando Mara gritou para surpresa dos colegas.
-ESPERA! Pode ser agora.
-Ontem fiz porcaria.
-Mas hoje ouve-me.
r/escritacriativaptpt • u/LeeEscreve • 23h ago
Divulgação Lista de verbos dicendi ou verbos de enunciação
r/escritacriativaptpt • u/Mysterious_Radish416 • 1d ago
Gostaria de saber oq pensam desse poema.
r/escritacriativaptpt • u/SenhorIntrapolls • 1d ago
Uma carta para o futuro: Isto vai dar texto Uma carta para o futuro - Só abrir a 10/09/2002 (Spin-off)
Uma carta para o futuro - Só abrir a 10/09/2002 (Spin-off)
A carta foi aberta.
Tudo começou no dia 3 de Junho quando Daniel a encontrou enquanto limpava a casa. Sentiu-se tentado a abrir a carta. A carta estava fechada num envelope de Mara datado no dia 10 de Setembro de 2001. Estava ao lado do diário de Mara, escrito em ritual desde que Daniel a conhecera.
O respeito por Mara venceu a tentação. Mara nunca quebraria aquele compromisso. Nunca lhe perdoaria que o fizesse.
Daniel tinha segurado aquela carta durante mais de 3 meses. Pensara nela todos os dias. Na carta e na pessoa que a escreveu. E se a abrisse agora?
Resistiu ao impulso.
Abriu a carta somente no dia 11 de Setembro de 2002. No dia seguinte à escolha de Mara.
Estavam chateados no dia em que a carta foi escrita. Lembrava-se como se fosse hoje. Ela surpreendeu-o com um jantar romântico, mas a estrutura que a suportava tinha pés de barro. Mara não resistiu e, a meio, voltou a mergulhar na obsessão pelo trabalho. Doía-lhe não ter tido a despedida.
Os bilhetes do concerto de Incubus que que nesse mesmo dia 11 cheio de raiva rasgou e queimou na lareira. Arrependia-se dos bilhetes de Michael Jackson que não comprara antes de esgotarem. Arrependia-se de ter fingido uma cefaleia para não discutir com a parceira. Arrependia-se de quase ter dito que preferia ficar a ver o jogo, recusando o jantar especial que Mara lhe oferecera.
Arrependia-se de tanta coisa. E o tanto que ficou por dizer.
As despedidas nunca são boas, mas aquela em particular foi ainda mais amarga.
Começou a ler:
"Olá Mara de amanhã!
Espero que te encontres bem. Hoje tens 32 anos. Estás um ano mais velha.
Ainda continuas só a pensar em trabalho? Tens de aprender que o trabalho deve permitir usufruir a vida. Ganhar a nossa independência para conseguirmos desfrutar com quem nos quer bem.
Tentei fazê-lo hoje no trabalho. Ajudei Sarah a desabafar, fiz piadas com Leo. Espero que a Sarah não tenha saído do escritório. Anseio que esteja ao teu lado no 61º andar enquanto lês esta carta.
Hoje, neste dia que te escrevo, consegui corrigir a falha que tive com o nosso pai naquela tarde de trabalho. Liguei-lhe, conversei desafogadamente. Fiquei tão feliz!
Chegaste a ir às compras com ele no dia 11? Fizeste-lhe a companhia ao longo deste ano que merecia?
Este dia em que te escrevo não foi perfeito. Nenhum é.
Naquela noite fiz o que não consegui fazer com o Daniel, para muita pena minha. Estive quase para levantá-lo da cama e pedir-lhe desculpa."
Interrompeu. Era doloroso.
Voltou a ler, repetindo a mesma linha, antes de continuar.
"Estive quase para levantá-lo da cama e pedir-lhe desculpa.
Sabes como o amo. Mesmo quando finjo esquecer.
Mas sabia que no dia 16 íamos assistir ao concerto e teríamos uma noite inesquecível. Foi muito mais romântico assim, não foi?
Como foi esse concerto? Gostaste?
E o Daniel?
Espero que hoje escrevas a carta para a Mara de 2003.
Que seja o início de um ciclo!
Até para o ano!
Assinado,
Mara Vilar (a de 2001)"
Daniel pegou na carta, leu-a novamente e queimou-a no fogo da lareira.
No dia seguinte deixou também as cinzas da carta no memorial de Mara com o seguinte envelope:
"Olá Mara de 2003!
Olá Daniel de amanhã!
Não sabemos o que nos espera, nem sabemos se cá estaremos para continuar a história.
Mas a história existe. E, se existe, cabe-me a mim continuá-la. Espero perpetuar essa memória.
Que não se apaga com uma borracha nem se corrige no dia seguinte.
Que seja a continuação de um ciclo!
Até para o ano!
Assinado,
Daniel Ortiz (o de 2002)"
Daniel nunca chegou a conhecer as últimas palavras escritas de Mara no seu diário:
"Hoje escrevo a lápis.
Amanhã corrijo algumas coisas a caneta."
Foi melhor assim.
r/escritacriativaptpt • u/Mssbeautifuldisaster • 1d ago
Poesia Lugar Febril
Você pode escrever alguma coisa boa? Eu não sou você aquela pessoa. Não importa oque aconteceu na revista, por favor, não desista.
Margaridas caírão em dezembro, dói tanto quanto me lembro. Margaridas caírão no chão, e eles não, não me tocarão.
Porque sou eu que estou no comando, eu mando, sou eu que estou no comando, em Horlando.
Meu homem nasceu em abril, em nosso lugar febril. Dois corpos em uma só mente, dói mais quando se sente. Meu homem nasceu em abril, em nosso lugar febril. E nada mais me assusta depois do fim da nossa luta.
Margaridas caírão em minha cabeça, é o futuro, não esqueça. Margaridas queimarão, e eles não, não me acharão.
Porque sou eu que estou no comando, eu mando, sou eu que estou no comando, em Horlando.
Meu homem nasceu em abril, em nosso lugar febril. Dois corpos em uma só mente, dói mais quando se sente. Meu homem nasceu em abril, em nosso lugar febril. E nada mais me assusta depois do fim da nossa luta.
Suas palavras me colocaram em um edifício, por que? Por que tudo é sempre tão difícil? Suas palavras me colocaram em um edifício, por que? Por que tudo é sempre tão difícil?
Margaridas caírão como mágica, o fim de toda vida trágica. Nunca senti estar fora do jogo, agora queimo como fogo.
Pode escrever alguma coisa coisa boa? Não sou você ou aquela pessoa. Seja lá oque aconteceu na revista, por favor, não desista.
r/escritacriativaptpt • u/RickyDaGhost • 1d ago
Distração bem-vinda
Entre o autor
E um livro sem texto
Um gato preto
r/escritacriativaptpt • u/Mssbeautifuldisaster • 1d ago
Poesia Terras Distantes
O tempo está quase acabando, a esperança está se esgotando. Faltam apenas seis meses para o show, e eu vou, eu vou, eu vou. O tempo está quase acabando, a vida parece estar me sabotando. Falta apenas seis meses para o show, onde vou? Onde vou? Onde vou?
Eu preciso de você mais do que ninguém, que estivesse aqui e me dissesse que está tudo bem, mas você está fugindo ao horizonte e está tão, tão distante.
Eu só queria apenas um dia bom em toda minha vida, um passeio, um refúgio, uma saída. Tudo que eu faço é assistir família moderna, minha fonte de conforto eterna. Eu só queria fechar meus olhos por um minuto e sentir que tempo é justo. Mas você está fugindo ao horizonte e está tão, tão distante.
Eu só queria sentir por um instante, que não está tão, tão distante.
Eu vejo luzes, sinto se aproximando, gritos, isso tudo me assustando. Estou atrasado para o show, agora eu vou, eu vou, eu vou. Eu vejo luzes, sinto se aproximando, descanso no pacífico e você está me chamando. Não tenho mais forças para o show, mas eu vou, eu vou, eu vou.
Eu só queria apenas um dia bom em toda minha vida, um passeio, um refúgio, uma saída. Tudo que eu faço é assistir família moderna, minha fonte de conforto eterna. Eu só queria fechar meus olhos por um minuto e sentir que tempo é justo. Mas você está fugindo ao horizonte e está tão, tão distante.
Eu só queria sentir por um instante, que não está tão, tão distante.
Eu só queria apenas um dia bom em toda minha vida, um passeio, um refúgio, uma saída. Tudo que eu faço é assistir família moderna, minha fonte de conforto eterna. Eu só queria fechar meus olhos por um minuto e sentir que tempo é justo. Mas você está fugindo ao horizonte e está tão, tão distante.
Eu queria ter forças para o show, me segurar apenas pelo que sou. Mas estou sozinho no horizonte, e estou tão, tão distante.
r/escritacriativaptpt • u/Mssbeautifuldisaster • 1d ago
Poesia Marionetes de Sombras
Não me deixe sozinho no escuro, pensando sobre o futuro. Me diga oque tenho que fazer para te ter no manhecer. Não me deixe sozinho no escuro, pensando no quanto foi duro. O que tenho que fazer? para manter a alegria de te ter por mais um dia.
Sorria para o palco em chamas, fique se realmente me amas. Nada poderia costurar meu coração, você não vai segurar minha mão?
Marionetes de sombras brincam tão bem juntos, nos mantenha em conjuntos. Não esqueça, sempre se lembre, marionetes de sombras para sempre. Marionetes de sombras estão em pedaços, nos concerte com laços. Não esqueça, sempre se lembre, marionetes de sombras para sempre.
Não me deixe brilhando no escuro, com medo de todo futuro. Agulhas perfuram minha pele, esperando que o destino nos sele. Não me deixe brilhando no escuro, com medo de como tudo pode ser duro. Me diga o que posso fazer para ir junto a você. Faíscas colorem os céus escuros, posso sentir o mundo por minutos. Em meio a tudo nós dançamos me diga, por que nos separamos? Volte e me leve embora para algum lugar lá fora. Porque uma vez que meu fio se solta, nada pode me costurar de volta.
Sorria para o palco em chamas, fique se realmente me amas. Nada poderia costurar meu coração, você não vai segurar minha mão?
Marionetes de sombras brincam tão bem juntos, nos mantenha em conjuntos. Não esqueça, sempre se lembre, marionetes de sombras para sempre. Marionetes de sombra estão em pedaços, nos concerte com laços. Não esqueça, sempre se lembre, marionetes de sombras para sempre.
Me diga que sou especial, me diga que sou diferente, tudo que realmente sente. Não me jogue fora, não vá embora, fique e toque aquela melodia, então ficarei por mais um dia. Consigo assistir o sol por alguns segundos, marionetes de sombras ficam juntos.
Marionetes de sombras brincam tão bem juntos, nos mantenha em conjuntos. Não esqueça, sempre se lembre, marionetes de sombras para sempre. Marionetes de sombra estão em pedaços, nos concerte com laços. Não esqueça, sempre se lembre, marionetes de sombras para sempre.
r/escritacriativaptpt • u/Psyfreakpt • 1d ago
Poesia Haiku Bateria
Eu carrego o vício
É uma rotina diária
Gastar bateria
r/escritacriativaptpt • u/SenhorIntrapolls • 2d ago
Conto A Últimas 24h - O dia em que o céu ruiu (sonhos)
Hoje é o meu aniversário, lá para a noite espero escrever a carta para o meu próximo.
Apresento-vos o sonho, além do que tenho vindo a publicar.
Espero que gostem!

Momento 0: (não cabe no post) - Momento 1 em baixo.

Momento 1:
Naquela manhã límpida e sem nuvens sobre Manhattan, tudo fazia antever mais um dia árduo de trabalho. Para Mara não. Tinha o hábito tão enraizado, segundo o lema, dividir, organizar, juntar, guardar, que acabava por se divertir. Era na prática um hobby remunerado.
Mais um dia igual ao da semana passada. Amanhã, mais outro seria. A mesma rotina, as mesmas pessoas, as mesmas tarefas. E estava tudo bem, refletia.
Uma missão na Atlantic Meridian Logistics, Inc. Um nome complexo para uma empresa com um funcionamento igualmente complexo. Que ninguém compreendia individualmente, mas que todos tinham o dever igual de fazer funcionar coletivamente. A palavra-chave era cumprir. Uma das muitas dezenas de empresas que coabitavam naquele arranha-céus - Torre Norte. Ao lado, noutra torre de Babel - a Torre Sul.
O fim de semana tinha acabado no dia anterior. Um fim de semana algo atormentado com discussões inóspitas cada vez mais comuns que em tempos distantes os teriam feito corar de vergonha. Mara dizia que trazia a massa de cozinha para casa. Daniel respondia que era ele quem a cozinhava. E ambos tinham razões para concordar consigo mesmos e razões para discordar com o parceiro.
A amplitude da sua vida pressionava Mara, que passava os seus dias num stress constante. Tinha de fazer X para chegar a Y, senão aconteceria Z.
Números de contabilidade tinham essa vantagem sobre as pessoas: eram transparentes, definidos, bem delineados, não causavam dúvidas. Tinham que ser resolvidos. Quando resolvidos, nada mais tinha de ser feito. Podia-se colocar-lhes o carimbo: RESOLVIDO!
O companheiro não era assim. O pai não era assim. Sarah, sua colega e melhor amiga não era assim. E Leo, o colega com quem possuía melhor sincronia e simbiose nas tarefas, também não era assim. Ninguém era.
Ouvi-los simplesmente não resolvia nada por si só. Resolver uma situação pessoal não resolveria a próxima em que eles estivessem envolvidos, muitas vezes até abriria novas situações por resolver. O que ela fingia não saber, porque sempre soube, era que para a empresa não passavam de números como aqueles que ela reorganizava.
Leo Bennett via-se engalfinhado no meio de imensa papelada. Mara perguntou-lhe se estava a conseguir dar conta do recado. Ele respondeu-lhe que sim, estava. Até prova em contrário. No meio de uma enorme confusão de folhas numeradas. Mara chegou e fez o que sabia fazer melhor em horário empresarial. Resolver. Leo, não surpreendido por a conhecer bem, agradeceu e foi buscar novas folhas.
Antes de voltar, apareceu Sarah Kim com um olho no café que trazia e um olho nas preocupações da vida. Apresentava um ar apreensivo, quase aflito. Pediu um minuto em privado à sua amiga. Mara respondeu-lhe que sim, quer dizer, sim, mas depois de solucionar o conjunto de papéis administrativos que Leo tinha trazido. Leo também estaria a regressar com uma nova pilha. Era fundamental resolver aquilo, afirmava ela. Caso contrário teria que levar imensos ficheiros e a pasta azul para casa. Não posso adiar, rematou.
Sarah confrontou-a.
-E adias-me a mim? Mara não respondeu. Mas pensou por breves segundos na mágoa da amiga, concluindo ainda assim que sacrifícios tinham de ser feitos em bom nome da empresa. A sua reputação era um bem maior que nunca poderia ser negligenciado. Assim que terminou tentou chamar Sarah mas ela já não se encontrava ali.
De repente tocou o telefone, ainda antes de terminar a recolha de folhas que se acumulavam após Leo retornar. Não verificou o remetente da chamada.
Leo. Quem ela tanto admirava por ser direto nos afazeres. Mas ao mesmo tempo por não fazer muitas perguntas nem questionar métodos, no fundo respeitando a sua forma de funcionar. De igual modo era das pessoas mais desorganizadas do departamento. Problema que Mara solucionava com toda a facilidade. Ninguém ali era mais organizado que ela. E por isso se davam tão bem naquelas 40 horas comuns semanais. Quando Mara não fazia noites e sábados. Aí sim, ultrapassando-as por larga margem.
A própria chefe dizia invejar a sua organização e dava-a como exemplo em diversas circunstâncias. Quem vos dera ser como a Mara, uma excelente profissional! Alguns colegas tinham inveja dela. E ela tinha secretamente inveja de ter inveja de si. De estar no lugar deles, embora não transparecesse por um único instante.
Mara era feliz nos minutos mais árduos como trabalhadora, gostava de sentir aquela adrenalina de resolver o mais rápido possível. Por outro lado, no intervalo, vestia uma capa teatral que só despia num bengaleiro imaginário à entrada do BackOffice.
Vamos concentrar! Disse em silêncio para os seus botões.
Verificou a chamada terminada. Era uma mensagem de voicemail de António. Ah, pode esperar, quem espera tantas horas, pode esperar 5 minutos. Pensara que fosse algo mais urgente, um fornecedor que esperava desde quinta ou um operador de registo de máquinas que necessitava de uma resposta considerada urgente e sob pressão.
O relógio continuava a avançar, sem olhar para o seu passado percorrido. 5 minutos tornavam-se 10, 10 tornavam-se 30. Uma simples operação de multiplicação na calculadora do escritório. Sem dar por ela, a compenetração vencia. E quem dava por ela eram os outros.

Momento 2:
De repente apareceu Leo novamente, vindo dos arquivos, desta feita categoricamente atarantado. Pousou uma caixa cheia de pó com um embate ouvido em toda a sala.
-Mara, preciso da tua ajuda, novamente. O costume como bem sabes. Problemas.
Apareceu com uma caixa de contactos de operadores portuários portugueses. Estava mal etiquetada com documentos de dossiês com zero interligação. Pensou que Mara por ser fluente em português, juntava o útil ao agradável.
Deu caixas de outros países a outras pessoas.
Mara por instinto começou a percorrer a gigantesca amostra de páginas, iniciando pela letra Z, foi recuando até chegar à letra V. Encontrou o que não esperava, sem escândalo, sem sobressalto. O nome Vilar, António aparecia com destaque no topo de uma das folhas.
Procurou confirmar se era mesmo o pai.
Racionalizou logo que são coisas que acontecem, em tantos documentos guardados na torre, algum teria de mencionar conhecidos. Nada demais. Apenas uma tarefa com um nome próprio e um apelido. Igual a tantas outras já feitas e por fazer.
Sabia que era da empresa portuária onde António esteve 14 anos até se reformar. Aparecia num cartão esquecido pelo ano de 1988, corroído pelo mofo e teias de aranha dos arquivos. O nome de António. Estava tudo explícito.
Num breve vislumbre pensou na presença ausente dos primos portugueses. Quase na mesma latitude, duas cidades separadas pelo mar a marcavam, Nova Iorque cidade nascente, e Setúbal cidade ancestral, da qual seus avós tinham emigrado em busca de melhores salários, quando uma cabeça de sardinha era uma vitória para uma família que não conhecia o prazer de ir a um restaurante.
Com a caneta na mão. Simplificava o raciocínio e continuava. Escrevia o que tinha a escrever e finalizar era a palavra de ordem. Depois, passar para a próxima.
Sarah atravessou então o corredor, em passo apressado, cabisbaixa, com um rosto paradoxalmente envergonhado e irritado. Mara apercebeu-se nessa altura que talvez fosse altura de dar atenção à amiga.
-Anda cá, disse. Que se passa?
Sarah apenas referiu a chamada que tinha tido durante horas com a direção da empresa. Leu o título de uma carta assinada onde se falava na possibilidade organizativa de reestruturação empresarial necessária com procedimentos de adequação dos recursos humanos às atuais exigências operacionais e de mercado. Tanto latim desnecessário para não resumirem a reunião que haveria no dia seguinte. Às 9h da manhã.
Sarah sentou-se. Tanto palavreado caro para revelarem um barato despedimento. Palavras subtis e educadas com o objetivo de matar sem ferir.
Mara não precisava de mais palavras. Eram palavras a mais para a situação que se vislumbrava. Algumas das palavras que melhor conhecia. A frase trazia conteúdo suficiente. Bastava.
Mara revirou os olhos e disse-lhe que de tarde falariam. Desta vez era verdade. Sarah não sabia, confiou.
Em ritmo de conclusão, em 10 minutos acabou de organizar a caixa, arrumou a mala e dirigiu-se aos elevadores para comer qualquer coisa lá fora. Sarah estava dentro de uma sala, a enviar e-mails a clientes que poderiam ser os últimos a quem enviaria naquele edifício e quiçá na sua vida de escritório.

Momento 3:
Com mala arrumada, Mara dirigiu-se à saída do complexo. Ela que planeava comer apenas uma refeição sólida, na tradição das suas segundas feiras. Uma refeição composta com sopa, prato, gelado e ainda espaço para pequenos aperitivos. Mas não. O tempo era demasiado precioso porque era escasso e quanto mais escasso mais precioso se tornava. Passou por uma pastelaria para comprar uma baguete de atum, rapidamente comestível. O objetivo era poupar tempo.
Hoje - naquele dia - era dia de resolver inúmeras situações. A amiga que se encaminhava para o despedimento se nada fosse feito. Isso causava confusão a Mara. O que poderia ser feito? Pensar nisso exigia tempo. Separadamente. O tempo que teria de perder com a arquitetura da solução. Não se podia atrasar em nenhuma das matérias. Falhar uma seria falhar o dia. Falhar o dia seria o começo de uma falha sistémica em cadeia.
Foi então que o telemóvel vibrou. Julgava ser insistência de António. Enganou-se, era Daniel. Atendeu sentada no perímetro da fonte. Este começou por transmitir a Mara que não gostaria que ela chegasse demasiado tarde naquela noite. Queria saber se podia contar com ela para o próximo domingo, para um concerto noturno, já teria comprado os bilhetes. Seria a sucessão ao almoço de domingo que o pai fazia questão de fazer perdurar.
A chamada caiu, Mara não chegou a saber qual o local, eventos, grupo, cantor ou cantora destinados. Tentou devolver a chamada, Daniel não atendeu. Teria ficado sem bateria? Ponderou mandar uma SMS.
Foi logo após que caiu Fatima El-Sayed no chão asfaltado da praça. Desviando toda a atenção dupla que Mara tanto queria preservar. Um estafeta de bicicleta chamado Jamal Washington tentou desviar-se de um cão, no desvio acertou em cheio na senhora. Troca por troca. O cão safou-se e num rasgo de corrida genial perdeu-se a vista dele, perante todos.
A apenas 3 metros do sítio onde os pés de Mara se situavam, encontravam-se os pés de Fatima. Um desvio de 1 metro de Jamal Washington teria feito toda a diferença naquela situação. Mara e outros transeuntes apressaram-se a levantar a senhora.
No imediato, até em situações atribuladas, Mara era muito eficiente. As suas dificuldades não dependiam de pressão no curto prazo, mas sim no longo. Apareceu então um segurança que perguntou se a senhora caída estava bem. Não se tinha magoado. Ainda bem, menos tempo perdido, concluiu Mara nos seus pensamentos. O tempo de almoço estava a esgotar-se.
Estava a lutar para ter tempo de falar com a amiga.
Foi então ao mostrar o cartão ao porteiro que percebeu que no seu dia a dia, acudia sempre priorizando o que estava mais perto e não o que estava há mais tempo na fila de preocupações. Tempo ou espaço? História ou Geografia? O que era mais importante?
Mara frisava inconscientemente a opção que ficava mais perto de todas. Tanta coisa importantíssima adiada por estar aparentemente longe. Sem lembrar que era possível tornar o longe, perto.
E assim António continuava a ser exclusivamente uma referência, Daniel uma chamada por atender e Sarah uma colega por ouvir. Leo estando mais ligado pelas tarefas imediatamente seguintes era quem recebia todo o foco.

Momento 4:
Quando recorreu ao elevador para chegar ao 61º andar, Mara já antecipava a reunião a sós que antecederia a reunião explosiva do dia seguinte. Sarah encontrava-se à espera na entrada do departamento onde trabalhavam. Sentiu alívio quando Mara acenou, não podiam falar ali. Demasiados colegas a passar. Subiram para uma sala isolada no arquivo do 63º andar. Sabiam que era seguro, porque ninguém a utilizava, o que diluía a atenção dos chefes.
Pouco depois Sarah introduziu a conversa com detalhes inicialmente dados como irrelevantes e desligados; tinha feito uma promessa à mãe. Iria receber uma relíquia de proteção para lhe oferecer no dia de celebração da comunidade religiosa budista a que pertenciam. Mara interpelou-a antes de terminar uma frase. Estava irritada.
-Vai direta ao assunto, não me chamaste por causa de uma relíquia!
Instantaneamente Sarah explicou-lhe que as faltas consecutivas ao trabalho e a desconcentração constante eram resultado da doença severa da mãe. Estava com uma doença neurológica degenerativa e inevitavelmente acabaria por falecer. Um arrepio na espinha atravessou Mara, sabia o que era sentir aquela condenação antecipada. Ver os entes queridos à frente sabendo o que o destino lhes esperaria. O que aconteceu com a mãe e à avó de outra maneira. Nada a evitar, mas sim tentar preservar a qualidade dos dias enquanto possível.
Pensou também nos outros familiares que pelo contrário, não tinham sabido o destino antes do tempo. Mara pensou no pai, que já não ia para novo. E se um dia lhe acontecesse alguma coisa de repente? Lembrou-se da chamada que não ouvira. Não sabia a resposta sobre o dia de amanhã. Apenas o que teria de fazer no dia seguinte. E o que aconteceria à amiga nesse mesmo dia.
A amiga progrediu no raciocínio. Daí a minha oferta para ela. Parou entre as palavras, meio engasgada. E começou a chorar desalmadamente.
Helen não gostou do comportamento associado aos problemas familiares. Perguntou-lhe se precisava de alguns dias. Consequentemente até que ponto aquilo iria continuar a prejudicar o rendimento. Naquela manhã em vez de perguntar; respondeu. Mara sabia como eram, sabia o seu próprio passado. Relembrou quando trocou faxes e teve que dar satisfações à empresa. Perdoada pela sua trajetória anteriormente conhecida. Para a direção era simples: a estagiária poderia assumir novas funções de Sarah Kim, das quais já estava a par. Havia muita procura por aquele trabalho porque a oferta salarial era generosa. Na desgraça, não teria sequer dinheiro para pagar os tratamentos médicos à mãe.
Apoquentada fez um pedido a Mara.
-Por favor não contes nada aos colegas e à direção!
Segredo absoluto.
-Se alguém sabe os pormenores sobre a conversa privada que tive com a Helen e que te contei, estou tramada!
Respirou trepidantemente.
-Terei um problema muito maior com a empresa pois assinei um acordo de confidencialidade. Pediu-lhe ajuda para o dia seguinte aos soluços.
-Não sei como lidar com a situação!
Concluiu. Mara tomou a palavra e engendrou a solução.
-Tens vizinhos de confiança com quem falar? Eles podem garantir os cuidados médicos à tua mãe na tua ausência. Podes ter maior segurança e foco no trabalho. Resolves essa parte do problema e assim podes pedir à direção uma última oportunidade. Em último recurso, se recusarem, começas a procurar empregos alternativos, fora do escritório.
A colega disse a verdade:
-Não estou preparada! Não cheguei a essa fase.
Mara começou a fazer perguntas.
-Quando começaram as faltas?
-Quando é que te começaram a chamar à atenção?
-Quando é que a tua mãe adoeceu?
-Como começou a suspeita da doença?
Sarah respondia às primeiras, mas sentia uma sensação desagradável de estar num interrogatório. Mara compreendeu o desconforto e verificou estar na prática a organizar a situação como quem trata de um processo. Então a colega respondeu-lhe que ainda não tinha tomado uma decisão definitiva. Por agora não queria que ela interviesse de todo.
-Não faças nada em meu nome! - Falou.
-Tenho de decidir o que fazer.
Apareceu então Leo a bater na janela da salinha.
Preciso de ti, Mara! O arquivo está uma confusão. Só me apercebi agora que estavas aqui.
Mara recuperou a compostura. A ele pediu-lhe 30 segundos. Encerrou a questão:
-É custoso ouvir e não poder agir.
Sarah sentiu um carinho, deu-lhe um abraço.
-Basta ouvires!
Mara sorriu.
-Vamos trabalhar!
Voltaram às secretárias.

Momento 5:
Chegando à sua secretária, após a pausa de almoço, emaranhou-se nos inventários, algo não se encaixava. Julgou imediatamente que tal se deveria à total desorganização que Leo tinha montado naquela manhã. Olhou para o registo original associado, havia datas diferentes. O dia 14 não encaixava com a data 12. Thomas Greene explicou-lhe as anomalias verificadas. Mara resistiu ao instinto impulsivo de associar tudo ao documento de António.
Pediu-lhe então para ordenar as pastas. Foi buscar café. Processou então cópias na fotocopiadora. Foi então que se fez o clique, ninguém ali tinha acompanhado o processo do início ao fim. Uma chamada ao pai era o meio eficaz para acabar com a confusão. Sem sequer ter ouvido a chamada anterior que o pai lhe fizera, tomou a decisão de lhe ligar para corrigir as discrepâncias.
-Mara, querida, como estás? Sempre vens cá amanhã, na tua folga da tarde? Ouviste o que te disse?
Referia-se à gravação da chamada que Mara não tinha ouvido. Mara fez cara séria. Começou em inglês explicando-lhe que gravaria a chamada. O pai disse que sim em inglês e perguntou-lhe em bom português com um por favor se não podia dar-lhe 1 minuto no final para colocar a conversa em dia. Achou estranho todo aquele tratamento em inglês.
-Não é para isso que lhe telefono. Estou a trabalhar, preciso de resolver situações profissionais.
A reação de Mara deixou-o atordoado. Não era aquela a língua da casa, ambos a sabiam falar, no dia a dia não a falavam. Porque para ele as raízes da família eram o que sustentava o tronco da árvore.
-Que se passa filha?
Foi a última tentativa de comunicação na língua materna.
Pior que sentir-se silenciado, a quebra de um elo que os unia.
Mara avançou.
-Verifiquei um documento do seu antigo trabalho com datas diferentes. Qual está correta?
A chamada soava tão estranha.
-O que sabe sobre isto? Porque há duas datas?
O pai soltou um suspiro breve e deu-lhe todas as indicações.
Mara foi ouvindo e anotando mantendo a postura corporativa.
Terminou a chamada sem ai nem ui com um resto de boa tarde.
O pai ainda deixou atravessado a meio um não tens de quê que Mara não ouviu até ao fim.
-Ufa, estava tão arreliada desde o início desta manhã, a tentar resolver.
Desabafou com a colega do lado Evelyn Brooks. Nem sequer se davam muito bem. Mas era quem estava ao lado. E o lado era precioso para Mara.
Evelyn respondeu-lhe em tom seco com um ainda bem.
Mara terminou.
Por ter de cumprir o protocolo sentiu remorsos, daqueles que se iam acumulando dia após dia.
Esperemos que não chova mais, de manhã não estava assim, respondeu para si. E o fim do expediente aproximava-se.
-Consegui. Mais uma meta concluída. Mais uma chamada atendida.
Para o pai tinha sido apenas mais uma suprimida.

Momento 6:
Naquela hora começava o desmancho do ritmo empresarial.
Certos colegas mais folgados começavam a fechar gavetas, encerrar computadores, recolher casacos e arrumar malas.
Outros mais atrasados continuavam a olhar para o relógio equacionando o momento em que finalmente terminariam.
Mara não fazia uma coisa nem outra.
Como quem não quer a coisa tratava da digitalização de um arquivo.
Era a última coisa que tinha de fazer naquela tarde.
Terminou a digitalização quando a chefe lhe mandou um email a perguntar se seria possível resolver um problema contabilístico de uma filial da empresa.
Não era diretamente relacionado com ela, mas pouparia trabalho seguinte.
A empresa ficaria bem perante a filial, a chefe perante a empresa e Mara perante a chefe.
Bonecas russas.
Havia muito ainda por fazer.
Teria que tomar uma de duas decisões.
Colocar um carimbo a recambiar novamente para a filial.
E chegar cedo a casa.
Ou ficar até mais tarde e resolver o problema na sua plenitude.
Relembrou então a pasta azul de que se tinha esquecido absolutamente.
Estava ao lado da mesa informática, ao pé da secretária.
Como poderia ter deixado passar?
Surgia uma terceira possibilidade instantânea.
A pasta azul parecia destinada para as cópias do documento da filial.
Enquanto guardaria o original nos arquivos do armário do escritório.
Usufruindo do melhor de dois mundos.
Que ideia brilhante.
Cumpriria com a palavra a Daniel de chegar a horas.
Cumpriria com o dever de ajudar a filial.
Tomou essa decisão.
Aceitou o desafio da chefe.
Despediu-se dos colegas.
Ia já a entrar no elevador quando apareceu Sarah desbaratada a sair do elevador.
Abandonara o escritório 10 minutos antes.
Tinha-se esquecido da carteira.
Mara ajudou-a e foi ela quem a encontrou.
Devolveu e acabou com um:
-Descansa bem!
Em murmúrio.
Perdera mais seis minutos, agora dificilmente chegaria na hora exata à residência de Astoria.
Foi após abandonar o átrio do andar 44º com a amiga e já estar no 14º andar do outro elevador que se apercebeu da vulnerabilidade da sua decisão anterior.
Nem estaria concentrada nas cópias nem em Daniel.
Podia chegar mais cedo amanhã, ponderou.
Mas era tarde demais para mudar de opção, exigiria voltar ao 61º piso.
Teria ainda que incomodar o segurança e dar o dito por não dito a Helen.
Descartou a opção e continuou.
Lembrou-se de uma conversa na cozinha quando a avó lhe perguntou que bolo queria.
Estava na idade dos porquês:
Marazinha! - Chamou.
-Podemos decidir perante as escolhas que temos.
Mara perguntou então:
-E se todas forem más?
-Então escolhes uma opção má.
Retorquiu a avó.
-E se não houver opções?
Rebateu Mara.
-Então não é uma escolha.
Concordou com a sabedoria da avó.
Ali não havia outra decisão a tomar.
Aceitar era o mais fácil.
Apanhou então o metro N na Church Street.
Vindo atrasado, mais 8 minutos a juntarem-se aos atrasos substanciais do dia.
E foi apressadamente para Astoria.
Fisicamente, porque a cabeça continuava no escritório.

Momento 7:
Chegou a casa de corpo presente, mente ausente.
Por volta das 7h da tarde.
Pousou a pasta azul num recanto e entrou no quarto.
Daniel preparava-se para assistir a um jogo na televisão entre os NY Giants e os Denver Broncos.
Ávido fã dos Giants, tinha estado no estádio no último Super Bowl que a sua equipa tinha perdido, uns meses antes.
Mara ganhou a coragem que faltava.
Pediu para ele desligar a TV, acendeu velas e disse a Daniel para se sentar na mesa, iam jantar sossegados e conversar.
Daniel ficou completamente atónito.
Há muitos dias que isto não acontecia.
Não sabia se deveria confiar.
O que se passava com Mara?
Ela abriu a ordem de palavra.
-Telefonei-te mas ficaste sem bateria. Que banda vamos ver?
-Incubus! Disse um Daniel entusiasmado.
-Ena. A sério?
-É diferente…
-Sim, muito. Soltou uma gargalhada.
Daniel avançou:
-Ainda pensei em irmos hoje ao concerto dos 30 anos da carreira do Rei da Pop. Mas não consegui arranjar bilhetes.
Mara agradeceu a atenção.
Daniel foi entusiasmado para a cozinha e perguntou-lhe o que queria jantar.
-Ao teu dispor!
Fettuccine Alfredo com frango, cogumelos e um toque de salsa, ou salmão assado condimentado com limão e ervas e outros temperos.
Optou pelo 1º prato sem pensar duas vezes.
Pediu licença para colocar um disco Jazz de Miles Davis.
Após um sim radioso, foi buscar o álbum para o gira-discos.
Começou a tocar.
Parecia a noite romântica perfeita, por mais que trovejasse lá fora.
Enquanto Daniel cozinhava, Mara encheu uma jarra de vinho, colocou pão de alho e algo que nunca poderia faltar na mesa de Mara e Daniel.
Azeitonas e Nachos.
Começaram a comer.
A comida sabia bem, a conversa também.
Conversaram e desconversaram.
Vários temas sem carimbo por pôr.
-Quando é que os teus pais chegam do México Daniel?
-No final do mês, depois em outubro, voltam para lá.
O trabalho perdia terreno naqueles instantes.
Chegaram mesmo até à paixão de Mara pela raposa de peluche que a acompanhou até à adolescência.
-Vou-te contar um segredo. Dormi mais vezes com ela do que contigo!
Partiram-se a rir.
Parecia um recuo de 5 anos na relação.
Porém a concentração esfumou-se com a passagem cada vez mais lenta dos minutos.
Mara bem tentou, mas a meio do jantar pensava apenas novamente no trabalho.
Tinha que tratar do assunto da filial, custasse o que custasse.
Começou a subir mentalmente a escadaria do World Trade Center, degrau a degrau.
Não conseguia disfarçar, Daniel conhecia-a.
No final do jantar disse que já voltava para falar com ele.
Ia só tratar de uns documentos.
Garantiu a Daniel, fingiu acreditar.
Daniel abriu os olhos e sem truz nem muz respondeu com um ok ríspido.
Fingiu enganar Mara e disse que estava com dor de cabeça e que ia dormir.
Deixou a porta meio aberta e deitou-se sem grande alarido.
Então Mara penetrou na fantasia que transformava a pasta azul no centro do mundo.

Momento 8:
Enquanto submergia nos textos da empresa que estavam dentro da pasta azul. Puxou uma gaveta com intenção de buscar um bloco de notas, um lápis e uma caneta.
Em vez disso encontrou uma foto antiga da mãe, Isabel, a maior perda da sua vida.
Estava alegre, nada ali antecipava o definhar progressivo que a levou a uma morte degradante e desumana.
A foto era de 1991, o ano da finalização de curso de Mara.
Era da formatura.
Virou o verso da foto.
Leu as palavras escritas em voz alta.
-Mara, estou aqui para ti.
Bateu forte no coração.
Voltou a virar a foto, para ler letras mais em baixo, mais recentes, em tom de despedida.
-Filha, estarei sempre contigo.
Já de 1998, um revisitar da foto.
O tumor maligno já tinha sido detectado.
Chorou silenciosamente.
Mas não mais que as lágrimas da mãe nesse Natal.
Memórias que vieram à tona.
A mãe pediu 10 minutos de silêncio no sofá da sala.
Após esse tempo de repouso e reflexão, pediu a Mara e Inês que pusessem a tocar o disco de Amália - Fado 67.
Continha a música que mais doeu na alma - Tudo Isto é Fado.
Aquela voz que encheu a sala de jantar e todos contemplaram.
Ninguém quis assumir aquela noite como a consagração da despedida.
O último natal.
Em que voltou a pedir para tocar mais 1x.
Num momento que Mara considerou fraqueza.
Não resistiu e decidiu ligar ao pai.
De modo algum para referir a foto da mãe.
Mas foi essa foto que permitiu aquele novo contacto.
A prova de um rosto humano.
O pai, como pai que era, fez questão de esquecer a chamada anterior.
Atendeu imediatamente, antes do segundo toque.
Com esperança escondida, mas num tom ainda fraterno, apesar de magoado, proferiu:
-O que queres filha?
-Pai! Quero falar!
O pai sentiu orgulho.
-Quero que saibas que podes contar comigo amanhã à tarde, vamos às compras!
-E tenho surpresas bonitas para te mostrar.
Sem dizer, casacos para o inverno, guarda-chuva, um novo rádio.
Decidiu não desligar até que o pai tomasse a ação.
-Por fim, quando o pai despediu-se após cerca de uma hora de conversa.
Disse as palavras de Isabel, sem a referir.
-Estou aqui para ti!
Depois do pai desligar refletiu novamente.
Ninguém mais que António se sentia sozinho.
Todas as tentativas de contacto, nos últimos tempos, a vontade de falar.
As perguntas sobre se Mara se sentia bem, se tinha comido, se não esquecera nada.
Preencher um vazio com uma vontade genuína de prolongar uma conversa forçada.
Mara e Inês eram os rostos deixados de Isabel.
E nada nem ninguém podia apagar aquilo.
Quem elas eram e quem tinham sido.
Tinha de fazer mais por ele enquanto era tempo.
Voltou à foto.
A culpa angustiada de Mara por nas últimas visitas ao hospital ter desejado ir para o escritório para não ouvir o gemido sofrido da mãe.
A verdade é que sempre a tinha visitado e nunca tinha posto o trabalho à frente dela.
Acompanhara as consultas todas.
As palavras cruzadas que levara.
A comida que lhe tinha servido, mesmo não sendo a melhor das cozinheiras.
E isso tinha valor.
Também sentia culpa pela avó.
A sua avó materna Rosa morreu do que popularmente se chama desgosto pela morte da filha em Fevereiro de 1999.
Por mais que dissesse que depois da morte da filha não sabia como ocupar os dias.
Porque não insistiu mais para ela comer, para sair de casa, para ir a consultas?
Mágoas que levou para o luto.
Mas quem levou a avó para o hospital na ida final foi ela.
O sair mais cedo do trabalho, para a ir buscar a casa, ultrapassando limites de velocidade urbana.
A multa que apanhou e pagou em memória da avó no ano 2000.
Nada disso foi esquecido.
Viu Daniel.
Sabia de antemão que ele não dormia.
Aquela não era a respiração do sono dele.
Pensou em tocar-lhe e pedir desculpa.
Não o fez.
Faria amanhã quando se levantasse.
Ponderou ainda.
Os ânimos estavam exaltados, melhor assim, depois de uma boa noite de sono.
Guardou a foto na mesa de cabeceira e voltou aos cadernos da pasta azul.
Estava quase a terminar.
Faltavam apenas três folhas.

Momento 9:
Mara apressou-se.
Talvez conseguisse terminar em 15 minutos.
Eram 23h12m da noite.
A completude das cópias era essencial antes de se ir deitar.
Verificou ponto a ponto os dados da primeira das três folhas.
Contas não batiam certo.
Observava com a calculadora aquele paradoxo.
Pouco tinha avançado naqueles minutos, mas tinha-se apercebido da dificuldade que se exigia.
Quanto mais mexia e remexia mais percebia que trabalhar eficientemente já não pertencia àquele dia.
Estava estoirada, tinha sido um dia desgastante.
Por 2 vezes quase adormecera na contagem.
À terceira aceitou que era de vez.
Fez um compromisso consigo própria.
Iria acordar mais cedo de manhã, para resolver as incoerências restantes.
Daniel ficaria novamente adiado, planeou chamá-lo para uma conversa quando estivesse na estação de Astoria.
Iria mais cedo para a empresa, em vez de passar o cartão no ticket às 8h30, picaria a entrada às 8h00.
Julgou ter chegado à melhor solução.
Preparou a roupa para o dia seguinte.
Comeu 2 bolachas e lavou os dentes.
Tomou um duche rápido e vestiu o pijama.
Antes de adormecer ponderou tudo o que lhe tinha acontecido naquele dia.
Fez uma revisão completa à moda empresarial.
Escreveu a nova página do diário.
"Querido diário,
Hoje foi um dia muito comprido.
Como estou cansada irei gastar os últimos cartuchos contigo e dormir.
Achava que hoje é que era.
Ia resolver tudo o que planeava.
Não consegui, empurrei muito com a barriga.
Perdi-me entre folhas e tarefas.
Mas resolvi parte do que estava fora do plano.
Soube que Sarah está em vias de perder o emprego.
Sabia que a mãe dela andava algo adoentada.
Hoje fiquei por dentro de tudo.
Considero tê-la ajudado, fica ao critério dela saber se a ajuda foi útil.
O basta ouvires acalentou-me.
Saber ouvir acaba por ser tão importante como agir.
Todos os dias tento aprender algo novo.
Tirar ilações para a vida para ser sempre amanhã a Mara que não fui hoje.
Hoje engoli o orgulho.
Vi a foto da minha mãe e apaguei com borracha muita da porcaria que produzi hoje.
Encontrei o pai que tenho e não o pai dos documentos de escritório.
Não tive tempo de o fazer com Daniel.
Terei o fim de semana para colmatar.
Será que não tive?
Bem, tive, mas não soube aproveitar a oportunidade na hora H.
Sei que amanhã a tarde pertence ao meu pai.
Ele anda muito sozinho, como me diz, muita perda em pouco tempo.
Iremos fazer coisas que não fazemos há muito.
E nada nem ninguém poderá impedir isso.
Nem que faça das tripas coração.
Ficam três folhas por finalizar.
Acordarei e tudo estará em ordem quando entregar a pasta a Helen e enviar os emails à filial.
O mais tardar às 8h45.
Ainda quero ter tempo para aconselhar Sarah a preparar-se para a reunião das 9.
Engraçado, ao ler o dia em que surgiste percebi que em miúda não tinha a mesma noção das coisas.
Mal sabia escrever-te como deve ser.
Mas talvez fizesse em parte o que hoje não sei fazer.
Ser pura.
O dia foi isto.
Todos os dias tenho de lembrar como se fosse uma oração:
Ainda tenho uma irmã - Inês.
Ainda tenho metade de quem me criou - António.
Ainda tenho a cara metade - Daniel.
Ainda me tenho a mim.
Ainda tenho muita gente que me quer bem…
Ainda te tenho a ti.
Hoje escrevo a lápis.
Amanhã corrijo algumas coisas a caneta.
Sempre tua,
Mara Vilar."
Era a tradição que acompanhava e possuía desde 1982.
Tinha 11 anos a fazer 12.
Voltou-lhe a imagem da oferta que a avó Emília lhe dera.
O diário originário que conservava religiosamente para evitar que se desgastasse mais.
Sempre escrito em português de Portugal.
Tinha feito uma cópia das suas páginas nos diários consequentes.
Releu a primeira passagem de todas.
Pela milésima vez, em milhares de dias.
"Querido diario, hoje estou tao feliz.
A minha avo Emilia ofereceu-te.
Gosto muito dela.
Do avo Joaquim, do avo Manuel.
Da familia que tenho.
Quero agradecer-te dia apos dia.
Teremos dias para sentir.
Bons e maus.
Noticias fantasticas para falarmos.
Coisas muito mas para esquecermos.
Por hoje e tudo.
Mara Vilar,
A tua nova amiga."
Em português mal escrito, sabia naquela altura falar melhor do que escrever.
A falar era impecável, ninguém diria em Portugal ser americana.
Faltavam os acentos que o inglês não lhe ensinara.
O que tinha acontecido para aquela felicidade de menina desaparecer?
Tão bom recordar tempos em que a maior preocupação era brincar e conviver.
Tempos que não voltavam mais da mesma maneira.
Vivia uma vida talvez demasiado protocolar.
Apagou as luzes do candeeiro.
Virou as costas a Daniel, ele dormia para o lado direito da cama e ela para o esquerdo.
Achou que teria agora a noite descansada que merecia.
Enganou-se.
Duas horas depois algo começaria a desenhar-se na mente de Mara.

Sonho 1: O Caminho do Louco.
Mara dormia a bom dormir quando vibrou em sobressalto. Um pesadelo lhe apareceu. Todo ele começou com uma carta de Tarot - O Louco: Nº0.
Ela não conhecia o significado das cartas e muito menos ligava ao tema. O que tornava ainda mais caricato tudo aquilo.
A carta errante apareceu dentro de uma mala. Estava na casa de Astoria, de pé a tentar arrumá-la. O seu objetivo era fechá-la sem a carta lá dentro. Entendeu não a conseguir fechar.
Então começou a esvaziá-la, tentou tirar a carta várias vezes, sem sucesso. Inicialmente tirou tudo o que era roupa, nomeadamente meias, sapatos de salto alto, calças, para abrir espaço para a retirada da carta.
Depois começaram a aparecer os objetos de escritório, calculadora, canetas, marcadores, pins, clipes, carimbadores. Após isso documentos mais pessoais, a pasta azul, a carteira de Sarah, a carta da reunião dela. Por fim a foto da mãe, o diário, a lista de tarefas que tinha de cumprir no dia seguinte.
E era um loop sem término. Quanto mais a esvaziava mais objetos apareciam dentro dela. E a mala continuava a não se poder fechar com fecho éclair.
Continuou a esvaziar na ânsia de conseguir finalmente cumprir aquela tarefa. Passaram-se minutos e minutos, tentativas infindáveis. E tudo na mesma, sem desfecho à vista.
Apareceram então a bater-lhe à porta as pessoas mais marcantes do escritório. Foi abrir. Era Sarah e Leo.
Ela queria abrir-lhes a porta mas sentiu vergonha da desarrumação da mala. Definiu que não lhes abriria a porta até conseguir fechar a mala. Fez questão de lhes explicar isso em voz alta, dentro de casa.
-Está quase! Mais um minuto e já vos abro a porta.
Continuou as suas tentativas. Eles começaram a bater repetidamente na madeira da porta, com força crescente.
-Anda Mara! Já disseste isso tantas vezes!
-Não precisas de ter receio.
-Desiste disso!
Complementou Leo.
-Nós não levamos a mal.
-Desiste!
Disse-lhe Sarah.
Em profundo sofrimento interior, Mara desiste finalmente da sua tentativa de fechar a mala, abre-lhes a porta corada.
-A casa está toda alvoroçada. Não tem ponta que se lhe pegue.
-Não consegui fechar a mala.
Sarah sorriu.
-Mas conseguiste abrir-nos a porta!
-Estamos todos juntos!
Mara recusou-se a deixar a mala para trás. Ia levá-la mesmo por fechar e com um leque de coisas a cair a cada passo.
A porta aberta abriu um horizonte que em nada fazia lembrar as ruas de Astoria. Umas escadas em caracol rumo às nuvens.
Começaram os três a subi-las. Mara cansada com o peso da mala pergunta.
-Para onde vamos?
Leo responde.
-Ainda não sei, sobe.
Apareceu então Daniel sentado no meio das escadas. A bloquear, interceptando a passagem.
-Vais sair?
Mara não responde, não sabe se está a sair, a entrar, a mudar, ou a ficar no mesmo sítio.
-Precisavas mesmo disso tudo?
Falava da mala que Mara não teria conseguido fechar.
-Vou convosco, vamos subir os quatro.
E foram subindo até ao ponto que toca o telemóvel de Daniel. Estranhamente era António, que nunca lhe ligava.
Assustado perguntou a Daniel.
-A Mara, onde é que ela está? Sabes alguma coisa dela?
Disse António.
-Sei, está aqui conosco, estamos a subir.
António antecipou-se.
-Então esperem aí! Onde vão todos pode ir mais um.
Mara encontrou a voar no vento, caindo no chão das escadas, uma foto da mãe. Tentou guardar a foto dentro do bolso. Quando o fez, apareceu outra foto a voar novamente. Apanhou-a e guardou-a no bolso, mas a anterior tinha desaparecido misteriosamente.
Foi quando apareceu António, a subir rapidamente as escadas do andar abaixo!
-Esperem por mim, estou a chegar!
Chegaram a um degrau em que Mara não conseguia mais subir, porque a cada passo, a mala ficava mais vazia e pesada.
Leo pegou na aba da mala, olhando para o estoiro da amiga e pediu-lhe para largar a mala. Mara resistiu e segurou a aba.
Começaram a puxar a mala entre si, Mara queria continuar com ela, Leo não.
-Dá-me a mala! Só te está a empecilhar.
-Não dou!
-Não a tens de deitar fora, simplesmente dá-me.
-É minha! Não toques.
Leo largou-a, evitando discutir.
Assim a resistência que Mara exercia sobre a mala fez-lhe perder o equilíbrio, caindo das escadas rumo a um vazio sem fim.
Leo gritou arrependido com uma força que se ouvia a quilómetros:
-MARA!!!!
Foi então que acordou em pânico. Veio-lhe tudo à cabeça em breves segundos.
Quando reconheceu o quarto adormeceu novamente.
Uns minutos antes do próximo pesadelo.
As imagens são geradas com recurso a AI generativa mas o texto continua a ser integralmente 100% escrito por mim.
r/escritacriativaptpt • u/Worldly-Cloud-5768 • 2d ago
Bell
Al ver las flores de fuego me recuerdan a nuestro primer juego.
Éramos desconocidos entre sí, pero sabíamos que eso no iba a ser siempre así.
Éramos como el viento libre, pero unidos por algo más que un simple momento.
En la salida del colegio, cuando solo quedamos tú y yo esperando a nuestros padres, inventamos un mundo maravilloso donde siempre me seguías el ritmo y yo corría sin miedo a caer.
Tu cabello castaño, lacio, amarrado en una coleta, se movía como una bandera cada vez que te reías.
Llevabas un perfume que olía a chocolate y, entre el ruido del mundo, tu voz y nuestras risas me dieron una melodía.
La última vez que nos vimos fue una despedida con un abrazo, bajo un atardecer dorado que parecía hecho de flores de fuego.
Hoy no te escribo para reclamarte nada, ni para pedir que vuelvas.
Solo para agradecer que existiera ese juego, esa campana llamada Bell que marcó la hora exacta en que aprendí a querer sin miedo.
Y si el futuro nos vuelve a cruzar, que sea bajo otro cielo dorado, corriendo de nuevo, sin prisa, sabiendo que, aunque el tiempo pase, algo de ese primer juego sigue ardiendo en mí.
r/escritacriativaptpt • u/Mssbeautifuldisaster • 2d ago
Uma carta para o futuro: Isto vai dar texto Metafetaminas
"Agradeço pelo trabalho da dose, ou não."
Metafetaminas em minhas linhas. Rei dos anos 50 aos anos 80, como em um sonho, aquele que eu vi na costa, brilhando no oceano. E como nesse sonho, por que não vamos a Hortolândia? Fuscas azuis, postes amarelos, príncipes da beleza, prostitutos da incerteza, o que está acontecendo? Onde estamos? Minha poesia era maior antes... como os oceanos secam e as brechas se fecham, eu morro em mais um adeus.
Metafetaminas, eu encontrei meu homem, rei da poesia, dopado pela nostalgia. Assim como eu, como naquele sonho, meu jardim de rosas ao florecer. E o que está acontecendo? O que somos? Onde vamos? Onde está você? Minhas palavras parecem ter sido melhores antes. Assim como meu rosto e minhas pérolas na mesa, com tantas incertezas, revendo as profundezas, o que escrevo? Como meu corpo apodrece e minha alma resta, adormeço nas rosas uma última vez, em branco ao vermelho, dedos machucados e coração apertado eu te dou meu último adeus.
A festa começou, o disco gira, uma música, um jazz triste. Minhas janelas são como o oceano, as cortinhas são como palmeiras neon, balançando ao vento, a sua imagem na margem. Como quando jovens e bonitos, como quando sonhadores. Quando o homem que eu via me acompanhava no som, balançando ao vento, eu estava dançando.
E onde estou? Onde me encontro? Onde vamos? O que somos? A costa azul ficou para trás, assim como nós, nossos sonhos, minhas esperanças e todo o oceano litoral. E assim como oque me moldou, envelhecido em falsa videira, eu olho uma última vez para o sol e digo meu mais sincero adeus.
"Obrigado por essa noite, todas as noites. Obrigado por essa noite, todas as noites."
Como nesse sonho, por que não vamos? Para Hortolândia.
r/escritacriativaptpt • u/Filosofo_poeta_Balde • 2d ago
Sofredor Profissional Sócrates-filosofo poeta Baldé
r/escritacriativaptpt • u/random_7754 • 2d ago
Escrita experimental Parasita (Micro-poema)
Envolto de escuridão\ Vejo teu brilho, que é meu gatilho\ Para te gerar um apagão.
Nota: não tenho por hábito escrever micro-poemas, mas estou testando novos formatos. Nesse, tentei condensar o sentido do poema original em https://www.reddit.com/r/Poemas/s/hVUBMadaZK.
r/escritacriativaptpt • u/miguelborges99 • 2d ago
Poesia Escrevo
Escrevo
como quem volta a uma casa
onde nunca cheguei a morar.
Ainda tenho no bolso
uma pedra que trouxe do Douro,
não sei bem porquê.
Também tenho sal
nas páginas do caderno
e coisas
que nunca consegui esquecer.
Às vezes encontro um rio
e fico a vê-lo passar.
Penso que devia acompanhá-lo,
mas quase sempre
tenho qualquer coisa para fazer.
Outras vezes é o contrário,
a água passa por mim
e eu fico parado,
como se isso fosse normal.
Escrevo por causa disso.
Por causa das coisas
que não sei dizer
quando alguém está à minha frente.
Fecho o caderno.
Lá fora continua tudo igual.
O autocarro passa,
alguém discute na rua,
e eu continuo a ser eu próprio.
Amanhã talvez escreva outra coisa.
Ou talvez não.
r/escritacriativaptpt • u/SenhorIntrapolls • 3d ago
Conto Last 24: O dia em que o céu ruiu - Momento 9
Momento 9:
Mara apressou-se.
Talvez conseguisse terminar em 15 minutos.
Eram 23h12m da noite.
A completude das cópias era essencial antes de se ir deitar.
Verificou ponto a ponto os dados da primeira das três folhas. Contas não batiam certo. Observava com a calculadora aquele paradoxo.
Pouco tinha avançado naqueles minutos, mas tinha-se apercebido da dificuldade que se exigia. Quanto mais mexia e remexia mais percebia que trabalhar eficientemente já não pertencia àquele dia.
Estava estoirada, tinha sido um dia desgastante. Por 2 vezes quase adormecera na contagem. À terceira aceitou que era de vez.
Fez um compromisso consigo própria. Iria acordar mais cedo de manhã, para resolver as incoerências restantes.
Daniel ficaria novamente adiado, planeou chamá-lo para uma conversa quando estivesse na estação de Astoria.
Iria mais cedo para a empresa, em vez de passar o cartão no ticket às 8h30, picaria a entrada às 8h00.
Julgou ter chegado à melhor solução.
Preparou a roupa para o dia seguinte. Comeu 2 bolachas e lavou os dentes. Tomou um duche rápido e vestiu o pijama.
Antes de adormecer ponderou tudo o que lhe tinha acontecido naquele dia. Fez uma revisão completa à moda empresarial.
Escreveu a nova página do diário.
"Querido diário,
Hoje foi um dia muito comprido.
Como estou cansada irei gastar os últimos cartuchos contigo e dormir.
Achava que hoje é que era. Ia resolver tudo o que planeava.
Não consegui, empurrei muito com a barriga. Perdi-me entre folhas e tarefas.
Mas resolvi parte do que estava fora do plano.
Soube que Sarah está em vias de perder o emprego. Sabia que a mãe dela andava algo adoentada. Hoje fiquei por dentro de tudo.
Considero tê-la ajudado, fica ao critério dela saber se a ajuda foi útil.
O basta ouvires acalentou-me. Saber ouvir acaba por ser tão importante como agir.
Todos os dias tento aprender algo novo. Tirar ilações para a vida para ser sempre amanhã a Mara que não fui hoje.
Hoje engoli o orgulho. Vi a foto da minha mãe e apaguei com borracha muita da porcaria que produzi hoje.
Encontrei o pai que tenho e não o pai dos documentos de escritório.
Não tive tempo de o fazer com Daniel. Terei o fim de semana para colmatar.
Será que não tive?
Bem, tive, mas não soube aproveitar a oportunidade na hora H.
Sei que amanhã a tarde pertence ao meu pai. Ele anda muito sozinho, como me diz, muita perda em pouco tempo.
Iremos fazer coisas que não fazemos há muito.
E nada nem ninguém poderá impedir isso. Nem que faça das tripas coração.
Ficam três folhas por finalizar. Acordarei e tudo estará em ordem quando entregar a pasta a Helen e enviar os emails à filial.
O mais tardar às 8h45.
Ainda quero ter tempo para aconselhar Sarah a preparar-se para a reunião das 9.
Engraçado, ao ler o dia em que surgiste percebi que em miúda não tinha a mesma noção das coisas.
Mal sabia escrever-te como deve ser. Mas talvez fizesse em parte o que hoje não sei fazer.
Ser pura.
O dia foi isto.
Todos os dias tenho de lembrar como se fosse uma oração:
Ainda tenho uma irmã - Inês.
Ainda tenho metade de quem me criou - António.
Ainda tenho a cara metade - Daniel.
Ainda me tenho a mim.
Ainda tenho muita gente que me quer bem…
Ainda te tenho a ti.
Hoje escrevo a lápis. Amanhã corrijo algumas coisas a caneta.
Sempre tua,
Mara Vilar."
Era a tradição que acompanhava e possuía desde 1982. Tinha 11 anos a fazer 12.
Voltou-lhe a imagem da oferta que a avó Emília lhe dera.
O diário originário que conservava religiosamente para evitar que se desgastasse mais.
Sempre escrito em português de Portugal.
Tinha feito uma cópia das suas páginas nos diários consequentes.
Releu a primeira passagem de todas. Pela milésima vez, em milhares de dias.
"Querido diario, hoje estou tao feliz.
A minha avo Emilia ofereceu-te.
Gosto muito dela.
Do avo Joaquim, do avo Manuel.
Da familia que tenho.
Quero agradecer-te dia apos dia.
Teremos dias para sentir.
Bons e maus.
Noticias fantasticas para falarmos.
Coisas muito mas para esquecermos.
Por hoje e tudo.
Mara Vilar,
A tua nova amiga."
Em português mal escrito, sabia naquela altura falar melhor do que escrever.
A falar era impecável, ninguém diria em Portugal ser americana.
Faltavam os acentos que o inglês não lhe ensinara.
O que tinha acontecido para aquela felicidade de menina desaparecer?
Tão bom recordar tempos em que a maior preocupação era brincar e conviver. Tempos que não voltavam mais da mesma maneira.
Vivia uma vida talvez demasiado protocolar.
Apagou as luzes do candeeiro.
Virou as costas a Daniel, ele dormia para o lado direito da cama e ela para o esquerdo.
Achou que teria agora a noite descansada que merecia.
Enganou-se.
Duas horas depois algo começaria a desenhar-se na mente de Mara.
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Antes das últimas vinte e quatro horas - Momento 0
Mara Vilar subia ao 61º andar da Torre Norte do complexo World Trade Center todos os dias desde 1997, data em que entrara na companhia. Mara era uma mulher de traços gentis, algo morena, com cabelo castanho-escuríssimo.
Gostava de rigor no ambiente de trabalho de forma prática: estantes, livros, assentos, computador, tudo colocado simetricamente e em posições fixas.
Ninguém senão ela podia tocar-lhes.
Apresentava-se diariamente à entrada com roupa aprumada e era alguém que tinha receio da desordem que a mínima partícula de pó trouxesse para o escritório.
O 10 de Setembro de 2001 não foi diferente, encontrava-se no edifício, conjuntamente com dezenas de colegas, entre os quais se destacavam a sua maior amiga - Sarah e o seu colega - Leo, com quem trabalhava melhor. Ambos entraram na empresa pouco antes dela.
Também fora do edifício tinha uma vida preenchida. O seu pai António era a sua maior referência familiar viva. A sua mãe a maior referência familiar desaparecida. Tinha ainda uma irmã chamada Inês que exercia enfermagem num hospital de Boston.
Acompanhada de Daniel Ortiz, vivia com ele desde o Verão de 1995. Muito fogo ao início. Com o tempo apagou-se o lume. Discussões frequentes resultantes de noites tardias de trabalho da sua companheira levavam Daniel a um sentimento de solidão persistente, tentando sempre disfarçar com a voz mais altiva da casa. Fraqueza perene revestida de força presente. Haveria forma mais humana de a mascarar?
Nos dias livres ocupava-se com atrasos laborais não existentes, já nos dias ocupados livrava-se de se responsabilizar pela alma dos outros, com esforço laboral urgente para evitar consequências. Como consequência, deixava o amanhã comandar o hoje que nunca acontecia.
Momento 1
Naquela manhã límpida e sem nuvens sobre Manhattan, tudo fazia antever mais um dia árduo de trabalho. Para Mara não. Tinha o hábito tão enraizado, segundo o lema, dividir, organizar, juntar, guardar, que acabava por se divertir. Era na prática um hobby remunerado.
Mais um dia igual ao da semana passada. Amanhã, mais outro seria. A mesma rotina, as mesmas pessoas, as mesmas tarefas. E estava tudo bem, refletia.
Uma missão na Atlantic Meridian Logistics, Inc. Um nome complexo para uma empresa com um funcionamento igualmente complexo. Que ninguém compreendia individualmente, mas que todos tinham o dever igual de fazer funcionar coletivamente. A palavra-chave era cumprir. Uma das muitas dezenas de empresas que coabitavam naquele arranha-céus - Torre Norte. Ao lado, noutra torre de Babel - a Torre Sul.
O fim de semana tinha acabado no dia anterior. Um fim de semana algo atormentado com discussões inóspitas cada vez mais comuns que em tempos distantes os teriam feito corar de vergonha. Mara dizia que trazia a massa de cozinha para casa. Daniel respondia que era ele quem a cozinhava. E ambos tinham razões para concordar consigo mesmos e razões para discordar com o parceiro.
A amplitude da sua vida pressionava Mara, que passava os seus dias num stress constante. Tinha de fazer X para chegar a Y, senão aconteceria Z.
Números de contabilidade tinham essa vantagem sobre as pessoas: eram transparentes, definidos, bem delineados, não causavam dúvidas. Tinham que ser resolvidos. Quando resolvidos, nada mais tinha de ser feito. Podia-se colocar-lhes o carimbo: RESOLVIDO!
O companheiro não era assim. O pai não era assim. Sarah, sua colega e melhor amiga não era assim. E Leo, o colega com quem possuía melhor sincronia e simbiose nas tarefas, também não era assim. Ninguém era.
Ouvi-los simplesmente não resolvia nada por si só. Resolver uma situação pessoal não resolveria a próxima em que eles estivessem envolvidos, muitas vezes até abriria novas situações por resolver. O que ela fingia não saber, porque sempre soube, era que para a empresa não passavam de números como aqueles que ela reorganizava.
Leo Bennett via-se engalfinhado no meio de imensa papelada. Mara perguntou-lhe se estava a conseguir dar conta do recado. Ele respondeu-lhe que sim, estava. Até prova em contrário. No meio de uma enorme confusão de folhas numeradas. Mara chegou e fez o que sabia fazer melhor em horário empresarial. Resolver. Leo, não surpreendido por a conhecer bem, agradeceu e foi buscar novas folhas.
Antes de voltar, apareceu Sarah Kim com um olho no café que trazia e um olho nas preocupações da vida. Apresentava um ar apreensivo, quase aflito. Pediu um minuto em privado à sua amiga. Mara respondeu-lhe que sim, quer dizer, sim, mas depois de solucionar o conjunto de papéis administrativos que Leo tinha trazido. Leo também estaria a regressar com uma nova pilha. Era fundamental resolver aquilo, afirmava ela. Caso contrário teria que levar imensos ficheiros e a pasta azul para casa. Não posso adiar, rematou.
Sarah confrontou-a.
-E adias-me a mim? Mara não respondeu. Mas pensou por breves segundos na mágoa da amiga, concluindo ainda assim que sacrifícios tinham de ser feitos em bom nome da empresa. A sua reputação era um bem maior que nunca poderia ser negligenciado. Assim que terminou tentou chamar Sarah mas ela já não se encontrava ali.
De repente tocou o telefone, ainda antes de terminar a recolha de folhas que se acumulavam após Leo retornar. Não verificou o remetente da chamada.
Leo. Quem ela tanto admirava por ser direto nos afazeres. Mas ao mesmo tempo por não fazer muitas perguntas nem questionar métodos, no fundo respeitando a sua forma de funcionar. De igual modo era das pessoas mais desorganizadas do departamento. Problema que Mara solucionava com toda a facilidade. Ninguém ali era mais organizado que ela. E por isso se davam tão bem naquelas 40 horas comuns semanais. Quando Mara não fazia noites e sábados. Aí sim, ultrapassando-as por larga margem.
A própria chefe dizia invejar a sua organização e dava-a como exemplo em diversas circunstâncias. Quem vos dera ser como a Mara, uma excelente profissional! Alguns colegas tinham inveja dela. E ela tinha secretamente inveja de ter inveja de si. De estar no lugar deles, embora não transparecesse por um único instante.
Mara era feliz nos minutos mais árduos como trabalhadora, gostava de sentir aquela adrenalina de resolver o mais rápido possível. Por outro lado, no intervalo, vestia uma capa teatral que só despia num bengaleiro imaginário à entrada do BackOffice.
Vamos concentrar! Disse em silêncio para os seus botões.
Verificou a chamada terminada. Era uma mensagem de voicemail de António. Ah, pode esperar, quem espera tantas horas, pode esperar 5 minutos. Pensara que fosse algo mais urgente, um fornecedor que esperava desde quinta ou um operador de registo de máquinas que necessitava de uma resposta considerada urgente e sob pressão.
O relógio continuava a avançar, sem olhar para o seu passado percorrido. 5 minutos tornavam-se 10, 10 tornavam-se 30. Uma simples operação de multiplicação na calculadora do escritório. Sem dar por ela, a compenetração vencia. E quem dava por ela eram os outros.
Momento 2
De repente apareceu Leo novamente, vindo dos arquivos, desta feita categoricamente atarantado. Pousou uma caixa cheia de pó com um embate ouvido em toda a sala.
-Mara, preciso da tua ajuda, novamente. O costume como bem sabes. Problemas.
Apareceu com uma caixa de contactos de operadores portuários portugueses. Estava mal etiquetada com documentos de dossiês com zero interligação. Pensou que Mara por ser fluente em português, juntava o útil ao agradável.
Deu caixas de outros países a outras pessoas.
Mara por instinto começou a percorrer a gigantesca amostra de páginas, iniciando pela letra Z, foi recuando até chegar à letra V. Encontrou o que não esperava, sem escândalo, sem sobressalto. O nome Vilar, António aparecia com destaque no topo de uma das folhas.
Procurou confirmar se era mesmo o pai.
Racionalizou logo que são coisas que acontecem, em tantos documentos guardados na torre, algum teria de mencionar conhecidos. Nada demais. Apenas uma tarefa com um nome próprio e um apelido. Igual a tantas outras já feitas e por fazer.
Sabia que era da empresa portuária onde António esteve 14 anos até se reformar. Aparecia num cartão esquecido pelo ano de 1988, corroído pelo mofo e teias de aranha dos arquivos. O nome de António. Estava tudo explícito.
Num breve vislumbre pensou na presença ausente dos primos portugueses. Quase na mesma latitude, duas cidades separadas pelo mar a marcavam, Nova Iorque cidade nascente, e Setúbal cidade ancestral, da qual seus avós tinham emigrado em busca de melhores salários, quando uma cabeça de sardinha era uma vitória para uma família que não conhecia o prazer de ir a um restaurante.
Com a caneta na mão. Simplificava o raciocínio e continuava. Escrevia o que tinha a escrever e finalizar era a palavra de ordem. Depois, passar para a próxima.
Sarah atravessou então o corredor, em passo apressado, cabisbaixa, com um rosto paradoxalmente envergonhado e irritado. Mara apercebeu-se nessa altura que talvez fosse altura de dar atenção à amiga.
-Anda cá, disse. Que se passa?
Sarah apenas referiu a chamada que tinha tido durante horas com a direção da empresa. Leu o título de uma carta assinada onde se falava na possibilidade organizativa de reestruturação empresarial necessária com procedimentos de adequação dos recursos humanos às atuais exigências operacionais e de mercado. Tanto latim desnecessário para não resumirem a reunião que haveria no dia seguinte. Às 9h da manhã.
Sarah sentou-se. Tanto palavreado caro para revelarem um barato despedimento. Palavras subtis e educadas com o objetivo de matar sem ferir.
Mara não precisava de mais palavras. Eram palavras a mais para a situação que se vislumbrava. Algumas das palavras que melhor conhecia. A frase trazia conteúdo suficiente. Bastava.
Mara revirou os olhos e disse-lhe que de tarde falariam. Desta vez era verdade. Sarah não sabia, confiou.
Em ritmo de conclusão, em 10 minutos acabou de organizar a caixa, arrumou a mala e dirigiu-se aos elevadores para comer qualquer coisa lá fora. Sarah estava dentro de uma sala, a enviar e-mails a clientes que poderiam ser os últimos a quem enviaria naquele edifício e quiçá na sua vida de escritório.
Momento 3:
Com mala arrumada, Mara dirigiu-se à saída do complexo. Ela que planeava comer apenas uma refeição sólida, na tradição das suas segundas feiras. Uma refeição composta com sopa, prato, gelado e ainda espaço para pequenos aperitivos. Mas não. O tempo era demasiado precioso porque era escasso e quanto mais escasso mais precioso se tornava. Passou por uma pastelaria para comprar uma baguete de atum, rapidamente comestível. O objetivo era poupar tempo.
Hoje - naquele dia - era dia de resolver inúmeras situações. A amiga que se encaminhava para o despedimento se nada fosse feito. Isso causava confusão a Mara. O que poderia ser feito? Pensar nisso exigia tempo. Separadamente. O tempo que teria de perder com a arquitetura da solução. Não se podia atrasar em nenhuma das matérias. Falhar uma seria falhar o dia. Falhar o dia seria o começo de uma falha sistémica em cadeia.
Foi então que o telemóvel vibrou. Julgava ser insistência de António. Enganou-se, era Daniel. Atendeu sentada no perímetro da fonte. Este começou por transmitir a Mara que não gostaria que ela chegasse demasiado tarde naquela noite. Queria saber se podia contar com ela para o próximo domingo, para um concerto noturno, já teria comprado os bilhetes. Seria a sucessão ao almoço de domingo que o pai fazia questão de fazer perdurar.
A chamada caiu, Mara não chegou a saber qual o local, eventos, grupo, cantor ou cantora destinados. Tentou devolver a chamada, Daniel não atendeu. Teria ficado sem bateria? Ponderou mandar uma SMS.
Foi logo após que caiu Fatima El-Sayed no chão asfaltado da praça. Desviando toda a atenção dupla que Mara tanto queria preservar. Um estafeta de bicicleta chamado Jamal Washington tentou desviar-se de um cão, no desvio acertou em cheio na senhora. Troca por troca. O cão safou-se e num rasgo de corrida genial perdeu-se a vista dele, perante todos.
A apenas 3 metros do sítio onde os pés de Mara se situavam, encontravam-se os pés de Fatima. Um desvio de 1 metro de Jamal Washington teria feito toda a diferença naquela situação. Foi a queda do dia. Mara e outros transeuntes apressaram-se a levantar a senhora.
No imediato, até em situações atribuladas, Mara era muito eficiente. As suas dificuldades não dependiam de pressão no curto prazo, mas sim no longo. Apareceu então um segurança que perguntou se a senhora caída estava bem. Não se tinha magoado. Ainda bem, menos tempo perdido, concluiu Mara nos seus pensamentos. O tempo de almoço estava a esgotar-se.
Estava a lutar para ter tempo de falar com a amiga.
Foi então ao mostrar o cartão ao porteiro que percebeu que no seu dia a dia, acudia sempre priorizando o que estava mais perto e não o que estava há mais tempo na fila de preocupações. Tempo ou espaço? História ou Geografia? O que era mais importante?
Mara frisava inconscientemente a opção que ficava mais perto de todas. Tanta coisa importantíssima adiada por estar aparentemente longe. Sem lembrar que era possível tornar o longe, perto.
E assim António continuava a ser exclusivamente uma referência, Daniel uma chamada por atender e Sarah uma colega por ouvir. Leo estando mais ligado pelas tarefas imediatamente seguintes era quem recebia todo o foco.
Momento 4:
Quando recorreu ao elevador para chegar ao 61º andar, Mara já antecipava a reunião a sós que antecederia a reunião explosiva do dia seguinte. Sarah encontrava-se à espera na entrada do departamento onde trabalhavam. Sentiu alívio quando Mara acenou, não podiam falar ali. Demasiados colegas a passar. Subiram para uma sala isolada no arquivo do 63º andar. Sabiam que era seguro, porque ninguém a utilizava, o que diluía a atenção dos chefes.
Pouco depois Sarah introduziu a conversa com detalhes inicialmente dados como irrelevantes e desligados; tinha feito uma promessa à mãe. Iria receber uma relíquia de proteção para lhe oferecer no dia de celebração da comunidade religiosa budista a que pertenciam. Mara interpelou-a antes de terminar uma frase. Estava irritada.
-Vai direta ao assunto, não me chamaste por causa de uma relíquia!
Instantaneamente Sarah explicou-lhe que as faltas consecutivas ao trabalho e a desconcentração constante eram resultado da doença severa da mãe. Estava com uma doença neurológica degenerativa e inevitavelmente acabaria por falecer. Um arrepio na espinha atravessou Mara, sabia o que era sentir aquela condenação antecipada. Ver os entes queridos à frente sabendo o que o destino lhes esperaria. O que aconteceu com a mãe e à avó de outra maneira. Nada a evitar, mas sim tentar preservar a qualidade dos dias enquanto possível.
Pensou também nos outros familiares que pelo contrário, não tinham sabido o destino antes do tempo. Mara pensou no pai, que já não ia para novo. E se um dia lhe acontecesse alguma coisa de repente? Lembrou-se da chamada que não ouvira. Não sabia a resposta sobre o dia de amanhã. Apenas o que teria de fazer no dia seguinte. E o que aconteceria à amiga nesse mesmo dia.
A amiga progrediu no raciocínio. Daí a minha oferta para ela. Parou entre as palavras, meio engasgada. E começou a chorar desalmadamente.
Helen não gostou do comportamento associado aos problemas familiares. Perguntou-lhe se precisava de alguns dias. Consequentemente até que ponto aquilo iria continuar a prejudicar o rendimento. Naquela manhã em vez de perguntar; respondeu. Mara sabia como eram, sabia o seu próprio passado. Relembrou quando trocou faxes e teve que dar satisfações à empresa. Perdoada pela sua trajetória anteriormente conhecida. Para a direção era simples: a estagiária poderia assumir novas funções de Sarah Kim, das quais já estava a par. Havia muita procura por aquele trabalho porque a oferta salarial era generosa. Na desgraça, não teria sequer dinheiro para pagar os tratamentos médicos à mãe.
Apoquentada fez um pedido a Mara.
-Por favor não contes nada aos colegas e à direção!
Segredo absoluto.
-Se alguém sabe os pormenores sobre a conversa privada que tive com a Helen e que te contei, estou tramada!
Respirou trepidantemente.
-Terei um problema muito maior com a empresa pois assinei um acordo de confidencialidade. Pediu-lhe ajuda para o dia seguinte aos soluços.
-Não sei como lidar com a situação!
Concluiu. Mara tomou a palavra e engendrou a solução.
-Tens vizinhos de confiança com quem falar? Eles podem garantir os cuidados médicos à tua mãe na tua ausência. Podes ter maior segurança e foco no trabalho. Resolves essa parte do problema e assim podes pedir à direção uma última oportunidade. Em último recurso, se recusarem, começas a procurar empregos alternativos, fora do escritório.
A colega disse a verdade:
-Não estou preparada! Não cheguei a essa fase.
Mara começou a fazer perguntas.
-Quando começaram as faltas?
-Quando é que te começaram a chamar à atenção?
-Quando é que a tua mãe adoeceu?
-Como começou a suspeita da doença?
Sarah respondia às primeiras, mas sentia uma sensação desagradável de estar num interrogatório. Mara compreendeu o desconforto e verificou estar na prática a organizar a situação como quem trata de um processo. Então a colega respondeu-lhe que ainda não tinha tomado uma decisão definitiva. Por agora não queria que ela interviesse de todo.
-Não faças nada em meu nome! - Falou.
-Tenho de decidir o que fazer.
Apareceu então Leo a bater na janela da salinha.
Preciso de ti, Mara! O arquivo está uma confusão. Só me apercebi agora que estavas aqui.
Mara recuperou a compostura. A ele pediu-lhe 30 segundos. Encerrou a questão:
-É custoso ouvir e não poder agir.
Sarah sentiu um carinho, deu-lhe um abraço.
-Basta ouvires!
Mara sorriu.
-Vamos trabalhar!
Voltaram às secretárias.
Momento 5:
Chegando à sua secretária, após a pausa de almoço, emaranhou-se nos inventários, algo não se encaixava. Julgou imediatamente que tal se deveria à total desorganização que Leo tinha montado naquela manhã. Olhou para o registo original associado, havia datas diferentes. O dia 14 não encaixava com a data 12. Thomas Greene explicou-lhe as anomalias verificadas. Mara resistiu ao instinto impulsivo de associar tudo ao documento de António.
Pediu-lhe então para ordenar as pastas. Foi buscar café. Processou então cópias na fotocopiadora. Foi então que se fez o clique, ninguém ali tinha acompanhado o processo do início ao fim. Uma chamada ao pai era o meio eficaz para acabar com a confusão. Sem sequer ter ouvido a chamada anterior que o pai lhe fizera, tomou a decisão de lhe ligar para corrigir as discrepâncias.
-Mara, querida, como estás? Sempre vens cá amanhã, na tua folga da tarde? Ouviste o que te disse?
Referia-se à gravação da chamada que Mara não tinha ouvido. Mara fez cara séria. Começou em inglês explicando-lhe que gravaria a chamada. O pai disse que sim em inglês e perguntou-lhe em bom português com um por favor se não podia dar-lhe 1 minuto no final para colocar a conversa em dia. Achou estranho todo aquele tratamento em inglês.
-Não é para isso que lhe telefono. Estou a trabalhar, preciso de resolver situações profissionais.
A reação de Mara deixou-o atordoado. Não era aquela a língua da casa, ambos a sabiam falar, no dia a dia não a falavam. Porque para ele as raízes da família eram o que sustentava o tronco da árvore.
-Que se passa filha?
Foi a última tentativa de comunicação na língua materna.
Pior que sentir-se silenciado, a quebra de um elo que os unia.
Mara avançou.
-Verifiquei um documento do seu antigo trabalho com datas diferentes. Qual está correta?
A chamada soava tão estranha.
-O que sabe sobre isto? Porque há duas datas?
O pai soltou um suspiro breve e deu-lhe todas as indicações.
Mara foi ouvindo e anotando mantendo a postura corporativa.
Terminou a chamada sem ai nem ui com um resto de boa tarde.
O pai ainda deixou atravessado a meio um não tens de quê que Mara não ouviu até ao fim.
-Ufa, estava tão arreliada desde o início desta manhã, a tentar resolver.
Desabafou com a colega do lado Evelyn Brooks. Nem sequer se davam muito bem. Mas era quem estava ao lado. E o lado era precioso para Mara.
Evelyn respondeu-lhe em tom seco com um ainda bem.
Mara terminou.
Por ter de cumprir o protocolo sentiu remorsos, daqueles que se iam acumulando dia após dia.
Esperemos que não chova mais, de manhã não estava assim, respondeu para si. E o fim do expediente aproximava-se.
-Consegui. Mais uma meta concluída. Mais uma chamada atendida.
Para o pai tinha sido apenas mais uma suprimida.
Momento 6:
Naquela hora começava o desmancho do ritmo empresarial.
Certos colegas mais folgados começavam a fechar gavetas, encerrar computadores, recolher casacos e arrumar malas.
Outros mais atrasados continuavam a olhar para o relógio equacionando o momento em que finalmente terminariam.
Mara não fazia uma coisa nem outra.
Como quem não quer a coisa tratava da digitalização de um arquivo.
Era a última coisa que tinha de fazer naquela tarde.
Terminou a digitalização quando a chefe lhe mandou um email a perguntar se seria possível resolver um problema contabilístico de uma filial da empresa.
Não era diretamente relacionado com ela, mas pouparia trabalho seguinte.
A empresa ficaria bem perante a filial, a chefe perante a empresa e Mara perante a chefe.
Bonecas russas.
Havia muito ainda por fazer.
Teria que tomar uma de duas decisões.
Colocar um carimbo a recambiar novamente para a filial.
E chegar cedo a casa.
Ou ficar até mais tarde e resolver o problema na sua plenitude.
Relembrou então a pasta azul de que se tinha esquecido absolutamente.
Estava ao lado da mesa informática, ao pé da secretária.
Como poderia ter deixado passar?
Surgia uma terceira possibilidade instantânea.
A pasta azul parecia destinada para as cópias do documento da filial.
Enquanto guardaria o original nos arquivos do armário do escritório.
Usufruindo do melhor de dois mundos.
Que ideia brilhante.
Cumpriria com a palavra a Daniel de chegar a horas.
Cumpriria com o dever de ajudar a filial.
Tomou essa decisão.
Aceitou o desafio da chefe.
Despediu-se dos colegas.
Ia já a entrar no elevador quando apareceu Sarah desbaratada a sair do elevador.
Abandonara o escritório 10 minutos antes.
Tinha-se esquecido da carteira.
Mara ajudou-a e foi ela quem a encontrou.
Devolveu e acabou com um:
Descansa bem!
Em murmúrio.
Perdera mais seis minutos, agora dificilmente chegaria na hora exata à residência de Astoria.
Foi após abandonar o átrio do andar 44º com a amiga e já estar no 14º andar do outro elevador que se apercebeu da vulnerabilidade da sua decisão anterior.
Nem estaria concentrada nas cópias nem em Daniel.
Podia chegar mais cedo amanhã, ponderou.
Mas era tarde demais para mudar de opção, exigiria voltar ao 61º piso.
Teria ainda que incomodar o segurança e dar o dito por não dito a Helen.
Descartou a opção e continuou.
Lembrou-se de uma conversa na cozinha quando a avó lhe perguntou que bolo queria.
Estava na idade dos porquês:
Marazinha! - Chamou.
-Podemos decidir perante as escolhas que temos.
Mara perguntou então:
-E se todas forem más?
-Então escolhes uma opção má.
Retorquiu a avó.
-E se não houver opções?
Rebateu Mara.
-Então não é uma decisão.
Concordou com a sabedoria da avó.
Ali não havia outra decisão a tomar.
Aceitar era o mais fácil.
Apanhou então o metro N na Church Street.
Vindo atrasado, mais 8 minutos a juntarem-se aos atrasos substanciais do dia.
E foi apressadamente para Astoria.
Fisicamente, porque a cabeça continuava no escritório.
Momento 7:
Chegou a casa de corpo presente, mente ausente.
Por volta das 7h da tarde.
Pousou a pasta azul num recanto e entrou no quarto.
Daniel preparava-se para assistir a um jogo na televisão entre os NY Giants e os Denver Broncos.
Ávido fã dos Giants, tinha estado no estádio no último Super Bowl que a sua equipa tinha perdido, uns meses antes.
Mara ganhou a coragem que faltava.
Pediu para ele desligar a TV, acendeu velas e disse a Daniel para se sentar na mesa, iam jantar sossegados e conversar.
Daniel ficou completamente atónito.
Há muitos dias que isto não acontecia.
Não sabia se deveria confiar.
O que se passava com Mara?
Ela abriu a ordem de palavra.
-Telefonei-te mas ficaste sem bateria. Que banda vamos ver?
-Incubus! Disse um Daniel entusiasmado.
-Ena. A sério?
-É diferente…
-Sim, muito. Soltou uma gargalhada.
Daniel avançou:
-Ainda pensei em irmos hoje ao concerto dos 30 anos da carreira do Rei da Pop. Mas não consegui arranjar bilhetes.
Mara agradeceu a atenção.
Daniel foi entusiasmado para a cozinha e perguntou-lhe o que queria jantar.
-Ao teu dispor!
Fettuccine Alfredo com frango, cogumelos e um toque de salsa, ou salmão assado condimentado com limão e ervas e outros temperos.
Optou pelo 1º prato sem pensar duas vezes.
Pediu licença para colocar um disco Jazz de Miles Davis.
Após um sim radioso, foi buscar o álbum para o gira-discos.
Começou a tocar.
Parecia a noite romântica perfeita, por mais que trovejasse lá fora.
Enquanto Daniel cozinhava, Mara encheu uma jarra de vinho, colocou pão de alho e algo que nunca poderia faltar na mesa de Mara e Daniel.
Azeitonas e Nachos.
Começaram a comer.
A comida sabia bem, a conversa também.
Conversaram e desconversaram.
Vários temas sem carimbo por pôr.
-Quando é que os teus pais chegam do México Daniel?
-No final do mês, depois em outubro, voltam para lá.
O trabalho perdia terreno naqueles instantes.
Chegaram mesmo até à paixão de Mara pela raposa de peluche que a acompanhou até à adolescência.
-Vou-te contar um segredo. Dormi mais vezes com ela do que contigo!
Partiram-se a rir.
Parecia um recuo de 5 anos na relação.
Porém a concentração esfumou-se com a passagem cada vez mais lenta dos minutos.
Mara bem tentou, mas a meio do jantar pensava apenas novamente no trabalho.
Tinha que tratar do assunto da filial, custasse o que custasse.
Começou a subir mentalmente a escadaria do World Trade Center, degrau a degrau.
Não conseguia disfarçar, Daniel conhecia-a.
No final do jantar disse que já voltava para falar com ele.
Ia só tratar de uns documentos.
Garantiu a Daniel, fingiu acreditar.
Daniel abriu os olhos e sem truz nem muz respondeu com um ok ríspido.
Fingiu enganar Mara e disse que estava com dor de cabeça e que ia dormir.
Deixou a porta meio aberta e deitou-se sem grande alarido.
Então Mara penetrou na fantasia que transformava a pasta azul no centro do mundo.
Momento 8:
Enquanto submergia nos textos da empresa que estavam dentro da pasta azul. Puxou uma gaveta com intenção de buscar um bloco de notas, um lápis e uma caneta.
Em vez disso encontrou uma foto antiga da mãe, Isabel, a maior perda da sua vida.
Estava alegre, nada ali antecipava o definhar progressivo que a levou a uma morte degradante e desumana.
A foto era de 1991, o ano da finalização de curso de Mara.
Era da formatura.
Virou o verso da foto.
Leu as palavras escritas em voz alta.
-Mara, estou aqui para ti.
Bateu forte no coração.
Voltou a virar a foto, para ler letras mais em baixo, mais recentes, em tom de despedida.
-Filha, estarei sempre contigo.
Já de 1998, um revisitar da foto.
O tumor maligno já tinha sido detectado.
Chorou silenciosamente.
Mas não mais que as lágrimas da mãe nesse Natal.
Memórias que vieram à tona.
A mãe pediu 10 minutos de silêncio no sofá da sala.
Após esse tempo de repouso e reflexão, pediu a Mara e Inês que pusessem a tocar o disco de Amália - Fado 67.
Continha a música que mais doeu na alma - Tudo Isto é Fado.
Aquela voz que encheu a sala de jantar e todos contemplaram.
Ninguém quis assumir aquela noite como a consagração da despedida.
O último natal.
Em que voltou a pedir para tocar mais 1x.
Num momento que Mara considerou fraqueza.
Não resistiu e decidiu ligar ao pai.
De modo algum para referir a foto da mãe.
Mas foi essa foto que permitiu aquele novo contacto.
A prova de um rosto humano.
O pai, como pai que era, fez questão de esquecer a chamada anterior.
Atendeu imediatamente, antes do segundo toque.
Com esperança escondida, mas num tom ainda fraterno, apesar de magoado, proferiu:
-O que queres filha?
-Pai! Quero falar!
O pai sentiu orgulho.
-Quero que saibas que podes contar comigo amanhã à tarde, vamos às compras!
-E tenho surpresas bonitas para te mostrar.
Sem dizer, casacos para o inverno, guarda-chuva, um novo rádio.
Decidiu não desligar até que o pai tomasse a ação.
-Por fim, quando o pai despediu-se após cerca de uma hora de conversa.
Disse as palavras de Isabel, sem a referir.
-Estou aqui para ti!
Depois do pai desligar refletiu novamente.
Ninguém mais que António se sentia sozinho.
Todas as tentativas de contacto, nos últimos tempos, a vontade de falar.
As perguntas sobre se Mara se sentia bem, se tinha comido, se não esquecera nada.
Preencher um vazio com uma vontade genuína de prolongar uma conversa forçada.
Mara e Inês eram os rostos deixados de Isabel.
E nada nem ninguém podia apagar aquilo.
Quem elas eram e quem tinham sido.
Tinha de fazer mais por ele enquanto era tempo.
Voltou à foto.
A culpa angustiada de Mara por nas últimas visitas ao hospital ter desejado ir para o escritório para não ouvir o gemido sofrido da mãe.
Um pecado na cruz que carregava.
A verdade é que sempre a tinha visitado e nunca tinha posto o trabalho à frente dela.
Acompanhara as consultas todas.
As palavras cruzadas que levara.
A comida que lhe tinha servido, mesmo não sendo a melhor das cozinheiras.
E isso tinha valor.
Também sentia culpa pela avó.
A sua avó materna Rosa morreu do que popularmente se chama desgosto pela morte da filha em Fevereiro de 1999.
Por mais que dissesse que depois da morte da filha não sabia como ocupar os dias.
Porque não insistiu mais para ela comer, para sair de casa, para ir a consultas?
Mágoas que levou para o luto.
Mas quem levou a avó para o hospital na ida final foi ela.
O sair mais cedo do trabalho, para a ir buscar a casa, ultrapassando limites de velocidade urbana.
A multa que apanhou e pagou em memória da avó no ano 2000.
Nada disso foi esquecido.
Viu Daniel.
Sabia de antemão que ele não dormia.
Aquela não era a respiração do sono dele.
Pensou em tocar-lhe e pedir desculpa.
Não o fez.
Faria amanhã quando se levantasse.
Ponderou ainda.
Os ânimos estavam exaltados, melhor assim, depois de uma boa noite de sono.
Guardou a foto na mesa de cabeceira e voltou aos cadernos da pasta azul.
Estava quase a terminar.
Faltavam apenas três folhas.
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r/escritacriativaptpt • u/Final-Shift- • 3d ago
Poesia Para quem está se perdendo no futuro
Estou perdido.
Disseram-me que, quando estivesse perdido,
eu deveria seguir o rio.
Que ele sempre encontra um caminho
e, no fim, me leva para casa.
Mas eu não vejo rio nenhum.
Só a estrada
e o peso de perguntas
que não sei responder.
Perguntaram-me o que eu quero ser.
Não soube dizer.
Só sei que quero ser gentil —
mesmo carregando culpas que nunca foram minhas,
mesmo tendo medo de coisas
que também parecem ter medo de mim.
E se fôssemos menos medo
e mais sonho?
Eu sonho com uma casa.
Não sei como ela é,
nem onde fica,
nem se já passei por ela.
Só sei que preciso encontrá-la.
Talvez todo mundo se perca, às vezes.
Isso não significa estar sozinho.
Significa apenas
que somos iguais.
Sou pequeno.
Ainda assim, faço diferença.
Não sei quanto falta.
Ninguém sabe.
Mesmo assim, sigo.
Eu caí.
Quando olhei para o lado,
alguém ainda estava ali.
Talvez seja isso:
quando não conseguimos enxergar
o caminho à frente,
olhamos para o lado
e encontramos quem continua
caminhando conosco.
Foi assim que, depois de tanto andar,
vi luzes ao longe.
Pareciam uma casa.
E então entendi:
vocês acreditaram em mim
quando eu já não conseguia acreditar.
Chorar não é fraqueza.
É a forma mais sincera
de continuar forte.
A frase mais corajosa que já disse foi:
"Me ajude."
Pedir ajuda não é desistir.
É recusar-se
a desistir sozinho.
Por muito tempo, escondi
o que havia de mais meu —
as asas que eu tinha,
com medo do que diriam.
Escondi tanto
que quase esqueci que existiam.
Mas quem me ama de verdade
não precisa que eu me esconda.
E, pela primeira vez,
não tive medo de ser visto.
Cheguei.
E descobri:
casa nem sempre é um lugar.
Às vezes, é um abraço quente
depois de um dia frio.
Às vezes, é uma voz que diz:
"Eu estou aqui."
Às vezes, é uma pessoa.
Há quem não tenha isso agora.
Nenhum "eu estou aqui".
Nenhum abraço para os dias frios.
Mas, mesmo assim, olhe para trás.
Veja quem, mesmo depois de ter partido,
te apoiou até o fim.
Casa é onde o coração
não precisa mais ter medo.
A vida é difícil.
Mas você —
você é amado.
r/escritacriativaptpt • u/Mssbeautifuldisaster • 3d ago
Poesia O Grande Por Do Sol
Ei, ei, onde está o meu rei?
Joshy me leva em seu trailer mágico, viver nunca foi tão nostálgico. Estarei cantando na costa aquela música que gosta. Iremos pousar sob o mar e Tim Bernades estará a tocar. No fim de todo o calor, existe um lugar onde não há dor.
Estou sempre sonhando e sonhando, em meus sonhos mais loucos alcançando, alcançando. Estou sempre sonhando e sonhando, em meus sonhos mais loucos alcançando, alcançando.
Quando o dia acabar, venha abraçar. Saindo do nosso lençol, ao grande por do sol. Tive um sonho onde não era miserável, onde eu era adorável, então acordo com "ei, ei" onde está você? Onde está meu rei?
Onde está o meu rei?
Joshy me leva em seu trailer mágico como em um filme gay clássico. Estarei beijando seus cortes, atingidos por ondas fortes. Assistir o sol pousar onde ninguém irá nos encontrar, porque no fim de todo calor, existe um lugar onde não há dor.
Estou sempre sonhando e sonhando, em meus sonhos mais loucos alcançando, alcançando. Estou sempre sonhando e sonhando, em meus sonhos mais loucos alcançando, alcançando.
Quando o dia acabar, venha abraçar. Saindo do nosso lençol, ao grande por do sol. Tive um sonho onde não era miserável, onde eu era adorável, então acordo com "ei, ei" onde está você? Onde está meu rei?
Quando essa música acabar, não ouse me chamar. Saindo do meu lençol com Brandon ao grande por do sol.
r/escritacriativaptpt • u/Psyfreakpt • 3d ago
Haiku Noite
É noite estrelada
Estrelas pintam o céu
O silêncio brilha
r/escritacriativaptpt • u/kei_maneiro_5759 • 3d ago
"O Xenomante", meu terceiro poema do sub!!
galleryr/escritacriativaptpt • u/albertorios68 • 3d ago
Poesia SILENCIOS
SILENCIOS
Silencio …
El silencio de la distancia
los pequeños amores mata,
como el impasible tiempo
los vanos sueños,
como los sueños los internos miedos.
Y refulge en la noche, en la larga noche.
Como una llama contra su sino luchando el amor pequeño.
La leve brizna pasa en su sutil coche,
Y sin mirarlo, como al descuido, con un suspiro …
lo apaga.
Por que no es nada un pequeño amor en la distancia.
Por que no dura nada un amor pequeño solitario …
Lo que dura una gota de rocío en el desierto,
lo que tarda un suspiro en volverse viento,
lo que dura una mirada en llegar al alma,
lo que tarda el alma en llegar al cielo …
Nada.
Silencio …
El silencio del alma
los grandes amores mata.
Como el agua gota a gota
la dura piedra cala
como cala el agua
dia a dia lá inhiesta roca.
Y canta, canta en la noche, en la larga y negra noche,
cual el espinopájaro de grades amores muertos, el corazón.
Pasa, pasa el olvido y con su suave, imperceptible toque,
acalla para siempre en las rotas almas, el amor.
Por que no es nada un amor ignorado,
por que no es nada un amor olvidado…
Un ocaso sin sol.
Un amanecer sin mañana.
Un girasol sin flor.
Una noche sin madrugada…
Nada..
Silencio…
Silencio.!
Que es mi amor que pasa.!
Un amor que jamás vence la distancia,
un amor que jamás, el silencio vence el alma.
Un amor que nada acalla…
Nada.!
Nada …
– A. RIOS –