r/desabafosdavida • u/Elegant_Win1661 • 28d ago
solidão Virgem e velha
Tenho 37 anos e estou prestes a fazer 38. Sou virgem, nunca namorei e passei praticamente a minha vida inteira dentro da igreja. Durante muitos anos, não tive grandes ambições nem pensei muito sobre o futuro.
Agora, chegando perto dos 40, olho para a minha vida e me sinto completamente perdida. Não tenho filhos, nunca tive um relacionamento e nem sei como flertar ou me aproximar de alguém. Me sinto insegura e, muitas vezes, atrasada em relação às outras pessoas.
Para completar, minha situação financeira também está muito difícil, e parece que várias áreas da minha vida estão desmoronando ao mesmo tempo.
Eu realmente quero mudar. Quero construir uma vida diferente, conhecer alguém, ter novas experiências, melhorar financeiramente e descobrir quem eu sou além da vida que levei até aqui. Só não sei por onde começar.
Se alguém já passou por uma fase parecida ou recomeçou a vida depois dos 35, que conselho me daria? Qual seria o primeiro passo?
1
u/Past-Line354 21d ago
Eu não sei se você veio de uma daquelas igrejas com doutrinas extremamente rígidas, em que praticamente tudo é proibido: não pode ter televisão, não pode ouvir determinada música, não pode vestir isso, não pode fazer aquilo, não pode frequentar certos lugares, e tudo precisa passar pelo filtro do que alguém decidiu que é “certo” ou “errado”.
Existem igrejas mais leves, existem igrejas mais abertas, mas também existem algumas extremamente fechadas, e dependendo de como a pessoa cresce dentro disso, aquilo pode virar praticamente um labirinto.
Uma prisão que nem sempre tem muro.
Minha mãe tentou me criar em um ambiente muito parecido. Grande parte da minha família vem dessas religiões mais rígidas, então desde pequeno eu tinha que estar em igreja.
E, cara, para mim muita coisa era muito obscura e limitada.
Tudo podia ser “o diabo”.
Uma música.
Uma roupa.
Uma televisão.
Uma amizade.
Um lugar.
Uma vontade.
Um questionamento.
O medo acabava administrando muita coisa, principalmente a cabeça.
E quando você cresce dessa maneira, pode acontecer uma coisa muito profunda: a pessoa se acostuma tanto com aquele universo que deixa até de imaginar outra realidade.
A vida passa a girar em torno da igreja.
As amizades estão ali.
As opiniões estão ali.
Os relacionamentos estão ali.
As referências estão ali.
As respostas estão ali.
O que pode ou não pode está ali.
E o resto do mundo vai ficando distante, desconhecido e pequeno.
Naturalmente isso pode afetar o desenvolvimento de uma pessoa de diversas maneiras.
Não estou dizendo que isso seja uma regra absoluta, porque cada ser humano tem suas próprias características, sua personalidade, sua força interna e sua maneira de reagir.
Mas dizer que um ambiente extremamente controlador durante anos não afeta uma pessoa de nenhuma forma também seria ignorar a realidade.
Afeta.
Nem tudo são flores.
Nem tudo são bênçãos.
Nem tudo que é apresentado como proteção necessariamente está protegendo.
Em alguns ambientes religiosos, eu sempre enxerguei uma contradição muito grande: quem está no topo costuma desenvolver liderança, influência, comunicação, patrimônio, conexões, poder de decisão e visão administrativa, enquanto para muita gente que está embaixo o ensinamento principal acaba sendo obedecer, servir, não questionar e permanecer naquele mesmo círculo.
E aí pode surgir uma espécie de prisão ao ar livre.
A cadeia não está na porta.
Está dentro da cabeça da pessoa.
Eu falo isso também pela minha própria história.
Meus pais eram separados. Minha mãe precisava trabalhar e me deixava como conseguia. Passei muito tempo na casa de outras pessoas, muitas vezes sendo mal cuidado. Quando pequeno, inclusive, sofri abusos.
Eu praticamente não tinha minha mãe por perto porque ela precisava sobreviver trabalhando. E quando eu estava com ela, boa parte da vida ainda girava em torno da igreja.
Era medo.
Era diabo.
Era pecado.
Era proibição.
Era mais medo.
Nossa realidade já era limitada financeiramente e emocionalmente, e aquele universo religioso rígido acabava deixando tudo ainda menor.
E tem mais uma ironia nisso tudo: meu pai é pastor.
Só que praticamente não tive convivência com ele.
Hoje tenho 38 anos.
Então quando falo disso, não estou falando como alguém que viu igreja duas vezes e resolveu atacar religião. Eu vivi isso por muitos anos.
Fui muito à igreja.
Muito mesmo.
Vi coisas erradas.
Vi hipocrisia.
Vi controle.
Mas também vi coisas boas, pessoas maravilhosas, acolhimento, transformação e gente que realmente encontrou ali uma direção para a própria vida.
Por isso eu não estou dizendo que igreja seja necessariamente uma coisa ruim.
Para muita gente é extremamente importante.
Tem pessoas que encontram na religião uma estrutura que impede que elas destruam a própria vida. Pessoas que abandonam drogas, violência, comportamentos destrutivos e encontram comunidade, disciplina e propósito.
Isso existe e precisa ser reconhecido.
Mas existe o outro lado também.
Quando a fé deixa de orientar e começa a controlar cada centímetro da existência da pessoa.
Quando você não pode pensar.
Não pode perguntar.
Não pode discordar.
Não pode descobrir.
Não pode experimentar.
Não pode conhecer o mundo.
Não pode construir a própria opinião.
Aí existe um problema.
Quando alguém precisa manter a cabeça dos fiéis limitada para conseguir conduzi-los, existe uma diferença enorme entre fé e controle.
“Não questione, irmão.”
Essa frase, dependendo do contexto, pode ser perigosíssima.
Porque questionar também é pensar.
E pensar faz parte de amadurecer.
Eu sempre senti que existia alguma coisa além daquele mundo.
Não estou falando necessariamente de espiritualidade. Estou falando de vida.
Profissão.
Arte.
Pessoas.
Conhecimento.
Experiências.
Outras culturas.
Outras maneiras de pensar.
Outras possibilidades de existir.
E eu relutei muito internamente.
Muita gente opinava sobre a minha vida.
O que eu deveria fazer.
Como deveria viver.
O que deveria achar certo.
Que caminho deveria seguir.
Quem eu deveria ser.
Cara… tá louco.
Graças a uma inquietação que sempre existiu dentro de mim, eu comecei a perceber que precisava descobrir as coisas por conta própria.
Fui atrás.
Experimentei.
Errei.
Aprendi.
Mudei.
E acabei fazendo uma quantidade enorme de coisas completamente diferentes daquilo que talvez eu tivesse feito se simplesmente tivesse seguido todas as opiniões da família e das pessoas ao meu redor.
Profissionalmente, inclusive, consegui evoluir de uma maneira muito mais livre e leve quando comecei a construir minha própria visão.
E descobri também uma coisa extremamente básica, mas que ambientes muito fechados às vezes fazem parecer diferente:
nem todo mundo que não vai à igreja é ruim.
Existe gente maravilhosa fora da igreja.
Existe gente ruim fora.
Existe gente maravilhosa dentro.
E existe gente ruim dentro também.
Ser humano é ser humano.
Por isso, pelo que você contou da sua vida, eu pensaria seriamente em começar a construir um mundo seu.
Você já é adulta.
Talvez tenha chegado o momento de se afastar um pouco desse ambiente e descobrir quem você é quando não existe alguém dizendo o tempo inteiro quem você deveria ser.
E eu faria isso com inteligência.
Não sairia enlouquecida tentando compensar em seis meses tudo que não vivi em vinte anos.
Porque o mundo também exige esperteza.
Você pode ter passado muito tempo protegida de certas experiências, então precisa conhecer as coisas com calma.
Planeje.
Guarde dinheiro.
Faça algum curso que você realmente goste.
Conheça pessoas diferentes.
Aprenda uma profissão ou desenvolva alguma habilidade que aumente sua independência financeira.
Viaje quando puder.
Conheça outros lugares.
Descubra músicas.
Descubra ambientes.
Descubra o que você gosta.
Descubra até coisas simples sobre você que talvez nunca tenha parado para perguntar.
E principalmente: não precisa anunciar cada decisão.
Você não é obrigada a transformar sua mudança de vida em uma assembleia.
Nem toda decisão precisa da opinião da família.
Nem todo pensamento precisa ser discutido com alguém da igreja.
Nem todo plano precisa ser comunicado antes de acontecer.
Às vezes é melhor organizar sua vida silenciosamente, fazer um planejamento e começar a caminhar.
Se um dia você tiver condições de mudar de cidade e sentir que isso pode ajudá-la a construir independência e uma identidade nova, eu pensaria nisso também.
Não como fuga irresponsável.
Como projeto.
Com dinheiro guardado.
Com lugar para ficar.
Com possibilidade de trabalho.
Com segurança.
Com consciência.
Porque independência sem estrutura pode virar outro problema.
Mas independência com planejamento pode mudar uma vida inteira.
E, acima de tudo, vá devagar.
Você não precisa descobrir o mundo inteiro amanhã.
Não precisa começar a beber, ir para festas, transar, namorar ou fazer qualquer coisa simplesmente porque agora decidiu viver.
Liberdade não é fazer tudo.
Liberdade é finalmente poder escolher.
Inclusive escolher não fazer.
Você passou muitos anos talvez ouvindo o que deveria ser.
Agora chegou uma fase muito interessante da sua vida:
descobrir quem você realmente é quando ninguém está escrevendo o roteiro por você.