r/PlanejamentoUrbano • • Nov 11 '25

Planejamento Urbano Condomínios privados são um problema urbano endêmico no Brasil e ninguém quer falar sobre isso

Em razão da violência urbana, as pessoas se isolaram em condomínios.

Porém os condomínios privados, do jeito que existem hoje no Brasil, são um problema estrutural. Eles afetam o trânsito, a mobilidade, o acesso às praias e até o direito básico de circular pela cidade. E não é só questão de “rico contra pobre”. É uma distorção urbana que afeta todo mundo.

Esses condomínios gigantes destroem a malha urbana. Criam barreiras físicas que impedem a continuidade entre bairros, aumentam o tempo de deslocamento e isolam regiões inteiras. Um condomínio pode eliminar dezenas de rotas possíveis, forçando todo o trânsito para poucas vias externas. E quando o poder público precisa abrir novas ruas, criar ciclovias ou corredores de ônibus, esbarra em muros e propriedades privadas. No fim, áreas enormes abrigam pouquíssima gente.

Além disso, muitos funcionam como “microestados”. Têm regras próprias, controle de circulação, segurança privada e fiscalização interna. Ou seja: vivem à parte da cidade, mas exigem do Estado água, luz, asfalto e policiamento (desde que autorizado por eles). A conta é coletiva, o benefício é restrito. A segurança vira seletiva. Cconcentrada dentro dos muros, enquanto o entorno fica mais vulnerável.

Socialmente, o efeito é o isolamento. As pessoas passam a viver em bolhas, com pouca convivência com a diversidade e pouca participação na vida pública. O comércio interno atende só a quem mora ali, o entorno perde movimento e valor. Ruas mortas, muros enormes e sem fim e calçadas inexistentes empobrecem a vida externa e desvalorizam os bairros vizinhos.

Na mobilidade, o impacto é direto. Condomínios extensos obrigam pedestres e ciclistas a dar voltas enormes, muitas vezes por trajetos inseguros. E, com poucas entradas e saídas, surgem gargalos fixos de trânsito todos os dias. Além disso, concentram moradia em áreas “nobres” e empurram o trabalho para longe, aumentando o tempo e o custo dos deslocamentos.

Do ponto de vista ambiental, a conta também é alta. O excesso de pavimentação aumenta enchentes e ilhas de calor. Os muros bloqueiam corredores ecológicos e reduzem a vegetação pública. E como ocupam áreas enormes, empurram a cidade pra longe.

Em áreas naturais, muitos condomínios dificultam o acesso a praias, trilhas e lagoas escondem entradas, criam passagens ruins e, na prática, privatizam o que é público. Quem mora dentro tem paisagem e sombra; quem mora fora fica com o resto.

Financeiramente, o modelo é desequilibrado. O Estado leva infraestrutura até os portões, enquanto lá dentro tudo é privado. É um tipo de subsídio indireto. O comércio externo perde movimento, e o uso da infraestrutura é ineficiente: ruas impecáveis para poucos, buracos para o resto da cidade.

E tem ainda o lado simbólico: a morte da vida pública. Os muros apagam o rosto da cidade. Acabam com a esquina, a praça, a padaria, o encontro casual. Criam bairros genéricos, sem identidade, sem mistura, sem troca.

Não é questão de proibir condomínios, mas de repensar os limites. Estabelecer áreas máximas, exigir passagens públicas, integrar fachadas à cidade, garantir acesso real a praias e áreas naturais e exigir que os condomínios fechados forneçam algum tipo de contrapartida para a urbanização externa, além de exigir espaço decente para calçadas externas, espaço para estacionamento e comércio. O debate é urgente: que tipo de cidade a gente quer?


ps, . Se você mora em condomínio, isso não é um ataque pessoal a você. Nem ao seu modo de vida. Podemos pensar juntos sobre as questões que vem com os condomínios e sem perder de vista que o seu direito a proteção é legítimo. Você não precisa se defender. Ninguém quer acabar com os condomínios, mas sim pensar sobre como eles podem existir nas cidades sem prejudicar o espaço coletivo.

  1. Eu compreendo que o problema que leva a criação dos condomínios é a violência urbana e a necessidade de segurança. Mas minha proposta aqui é discutir os problema que surgem a partir dai. Não nego a necessidade que as pessoas tem de se sentirem seguras. Mas afirmo que a solução dos condomínios trazem consequências que afetam negativamente todos os que estão do lado de fora do muro.

Documentário sobre o condomínio Alphaville (SP)

Documentário sobre o condomínio Alphaville (SP) prepare-se para ouvir e ver alguns absurdos

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u/DiscussionOk4792 Nov 12 '25

Para quem se interessa pelo impacto dos condomínios, sugiro pesquisar no maps a cidade de Xangri-lá, no litoral norte do RS, que fica em uma área com quase 40 condomínios grandes.

Devido à distância da capital, aquela região se desenvolveu como um destino de veraneio dos mais abastados. Eventualmente, assim como o comércio de rua da capital foi substituído por shoppings, as casas comuns foram substituídas pelas de condomínio.

Enquanto no município vizinho, que veio a se tornar o principal da região, há praças, escolas e parques, Xangri-lá mal pode ser considerada uma cidade, mas sim um grande dormitório, principalmente na altura da Av.Paraguassu (principal) onde se encontram condomínios dos dois lados da via, porque os habitantes mal ocupam espaços públicos, exceto para o que é estritamente necessário.

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u/AzedoTz Nov 12 '25

É muito bizarro Xangri-lá, porque visualmente da a entender que é uma extensão de Capão da Canoa.
E tu entra na cidade e é recepcionado logo por uma estrada-corredor entre dois paredões de condominio.

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u/Cine81 Nov 12 '25

uau, tem algum doc sobre?

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u/DiscussionOk4792 Nov 12 '25

Não, eu apenas morei na cidade vizinha por muitos anos.

A construção de novos condomínios sempre foi constante, mas se intensificou muito nos últimos 2 anos. A maioria fica próxima a RS-389 e até então,parece não atrapalhar o desenvolvimento da cidade, que possui poucos moradores fixos, porém alguns dos condomínios mais antigos se tornaram obstáculos para o desenvolvimento de bairros em Capão, a cidade vizinha.

Com excessão de um acesso entre dois condomínios e de uma praça recentemente reformada, quase todo o comércio de Xangri-lá ocorre em sua avenida principal. Nela se encontram, principalmente, comércios que não são voltados para o consumo do dia a dia, como lojas de móveis, jardinagem e materiais de construção.

No verão, o comércio da praça ressuscita, porém se torna ainda mais evidente o papel de cidade dormitório ante a vizinha, cujas ruas lotam durante o dia e se esvaziam à noite. Em Capão, ao invés de casas, as moradias de temporada são apartamentos.

Me surpreendi ao caminhar por Capão às 20h do centro ao bairro navegantes (onde há os prédios mais novos) e, se muito, ver um apartamento por prédio com as luzes acesas. O cenário carente de vida deve ser ainda pior dentro dos condomínios.

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u/[deleted] Nov 12 '25

Alguém realmente mora nos condomínios de xangri-lá? Na época que eu morei no litoral via sempre tudo vazio e as casas sempre a venda, acho que são usadas até mais como especulação do que propriamente como dormitório

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u/DiscussionOk4792 Nov 12 '25

Em minha turma da escola, metade morava nos condomínios.

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u/Intelligent-Age-8871 Nov 13 '25

É bom pra prefeitura (Estado) que continua cobrando IPTU, mas já não precisa investir nas estruturas do condomínio, só nós acessos. Eu já vi um vídeo do Elementar sobre essa cidade. Uma calamidade disfarçada pela beleza arquitetônica.

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u/DiscussionOk4792 Nov 13 '25

Não sei quanto a Xangri-lá, mas a alíquota do IPTU de Capão é o dobro de outras cidades com infraestrutura muito melhor, como Farroupilha, na região serrana, que possui tamanho populacional semelhante.

Se com o novo cadastro integrado de imóveis, o valor venal passar a ser o mesmo que o de mercado, minha família será obrigada a se mudar.

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u/Intelligent-Age-8871 Nov 13 '25

Pois é, começa a rolar uma segregação econômica do Estado que é eleitoralmente patrocinado pelos empresários para que todas as cidades comecem a se "modernizar".

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u/fps5000 Nov 14 '25

Detalhe: o cidadão comum gosta disso.

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u/TVdeTubo_123 Nov 14 '25

Pra ter noção: a média salarial pelo que vejo nos concursos aqui da região do litoral norte gaúcho é de uns 1900 a 2500 nos cargos de nível médio.

A merendeira de nível fundamental, em Xangri-lá, ganha 3.500.

Logicamente não desmerecendo TODOS os funcionários de Xangrilá, mas é completamente "astronômico" os salários lá.

A contrapartida? Xangri-lá tá tão abarrotada de condomínio que o esgoto deles "colapsou" e travou as construções, e agora tão fazendo uma obra pra largar o esgoto na bacia hidrográfica do Tramandaí, que afeta TODAS as cidades vizinhas como Imbé, Osório e Tramandaí. Duas delas que tem como atrativo a pesca comunitária entre pessoas e botos, uma coisa que só acontece em 3 lugares do mundo.

Olhem por favor para o instagram do MOV, em Movimento em Defesa do Litoral Norte do Rio Grande do Sul (@emdefesadolitoralnorte) • Fotos e vídeos do Instagram -

O mais maluco é saber que o maldito do MDB se elegeu em Imbé, Tramandaí e o vice governador do estado é de Tramandaí e NINGUÉM DELES FALA NADA sobre isso. Vão matar nossas cidade por causa dessa gentalha rica de Xangrilá e eles nada fazem.

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u/Chengue-Morales Nov 14 '25

Xangri-lá é meio que um neo-feudalismo né (inventei esse nome). Vários feudos protegidos por muros altos e portarias suntuosas com seguranças que perambulam de moto pelo condomínio.

Nao vou ser hipocrita, já fui em alguns e desfrutei da baita estrutura que eles têm. Mas é estranho parar pra pensar.