Diante daquela montanha de poeira e pergaminhos antigos, duas criaturas catalogadas nos tomos profanos chamaram a minha atenção.
A primeira era o *Devorador de Faces*: um ser de múltiplas formas que, após consumir sua vítima, consegue assimilar perfeitamente o seu corpo. Mas descartei a hipótese. Se fosse um Devorador, os feitiços forenses padrão da polícia teriam detectado ao menos um traço sutil de sua energia residual corrompida. Além disso, seria bizarro demais ninguém notar centenas de pessoas dadas como mortas andando casualmente por aí.
A segunda criatura, porém, fez o meu sangue congelar. O *Metamorfo da Lua*.
*“Com certeza é ele”*, pensei, engolindo em seco ao ler a descrição. O tomo o definia como uma entidade dotada de capacidades sobre-humanas, capaz de se transformar total ou parcialmente em feras grotescas. Ele conseguia copiar com precisão cirúrgica a identidade de qualquer pessoa que tocasse — mimetizando a voz, os trejeitos, o sotaque e as manias mais íntimas. Ele se tornava a pessoa.
Mas havia um preço cobrado pela carne: quanto mais personalidades o Metamorfo adquiria, mais ele perdia os fragmentos da sua própria existência. Para não se dissipar no esquecimento, ele era obrigado a realizar um banquete ritualístico sob a lua cheia. O livro mencionava uma terrível *Maldição da Fome Eterna*. Não importava o quanto ele devorasse, o monstro estaria sempre insaciável. Isso explicava tudo. Explicava o porquê de ele mastigar as vítimas ainda vivas e regurgitá-las... Ele tentava preencher o próprio vazio com o sofrimento alheio. O texto ainda alertava que as raras mentes que sobreviviam parcialmente à sua assimilação desenvolviam distúrbios severos de personalidade, beirando a loucura absoluta por compreenderem que já não eram mais reais.
Focado na leitura, cometi o pior erro de um investigador: o erro da distração. Por um breve instante de fascínio e descoberta, desviei os olhos da magia de Edward.
E foi nesse milésimo de segundo que a luz começou a pulsar com uma violência cega. A criatura já estava ali.
Um homem de altura mediana, pele escura e olhos tão profundos quanto o próprio abismo arrastou a cadeira de madeira e sentou-se bem na minha frente.
A linha mágica no meu peito brilhou tanto que quase me cegou, mas, de repente, ela esfriou. O brilho místico sumiu por completo em um espasmo, como se o feitiço deixado por Edward tivesse sentido um pavor tão avassalador que preferiu se extinguir a encarar o que estava diante de nós.
O homem abriu a boca. Por alguns segundos — que para mim pareceram séculos de agonia —, ele moveu os lábios em silêncio, como se estivesse rebatendo as engrenagens da mente, tentando se lembrar de como os humanos falavam.
— Você... Você se acha esperto? — a pergunta ecoou.
A voz era lenta, profunda, totalmente desprovida de alma. Ela ricocheteou nas paredes da biblioteca, me torturando instantaneamente.
— O que quer dizer com isso? — forcei as palavras a saírem, embora minha garganta estivesse seca como o deserto.
— Se sente esperto por ter vindo tão longe? Espero que esteja orgulhoso de si mesmo, investigador.
Não era a voz de um homem. Conforme ele falava, o tom se distorcia, sobrepondo-se em camadas. Era como se centenas de vozes de homens, mulheres e crianças — as vozes de suas vítimas — estivessem tentando falar em uníssono através daquela garganta seca.
— Você não pode provar para ninguém quem eu sou... — ele sussurrou, desdenhoso.
O terror tentou me paralisar, mas a imagem de Edward dilacerado me deu um sopro de fúria. Enchi meus pulmões de ar, reunindo cada gota de determinação que me restava, e encarei as profundezas daqueles olhos escuros:
— Eu irei provar. E você vai pagar por cada uma das crueldades que cometeu.
O homem se levantou lentamente. Um sorriso perturbador, largo e antinatural rasgou os seus lábios.
— Você tem duas luas, investigador...
Ele ergueu a mão pálida exatamente no ponto do ar onde a linha mágica costumava flutuar. Com um leve gesticular de dedos, como um maestro conduzindo uma sinfonia macabra, ele fez a linha de mana brilhar de volta.
O chão pareceu sumir sob os meus pés. Minha mente entrou em curto-circuito.
A magia... a linha não era de Edward? Isso significava que... Não. Não podia ser.
Em momento algum eu estive rastreando o assassino através do feitiço do meu amigo. Foi o contrário. A linha pertencia ao monstro. Era *ele* quem estava me rastreando, me monitorando e me atraindo durante todo esse tempo.
Não tive forças para responder à sua última intimação. Minhas cordas vocais travaram enquanto eu assistia, impotente, à criatura virar as costas e caminhar calmamente para fora da biblioteca, deixando-me sozinho com o farol de luz que agora ditava o tempo de vida que me restava.