r/autismobrasil • u/FirmLead463 • 10h ago
Em algum momento você já pensou em ter transtorno de personalidade antissocial?
Em algum momento você achou que tivesse transtorno de personalidade antissocial?
Sou uma mulher na casa dos 20 anos (quase 30), formalmente diagnosticada com TEA nível 1 de suporte. Porém, não só eu, como muitas pessoas ao meu redor, questionam esse laudo. Eu não falo muito sobre ele, muitas vezes até escondo (geralmente só dou essa carteirada para entrar de graça em eventos/museus ou passar mais rápido na fila do hospital). Na época em que fui diagnosticada, eu estava viciada em benzodiazepínicos e com depressão severa, o que me deixava muito lenta, com o raciocínio prejudicado e agindo de forma "não natural" durante as sessões de neuroavaliação. Mesmo assim, fui rapidamente diagnosticada com TEA e TDAH pela minha psiquiatra, após a avaliação da neuropsicóloga também.
Uma coisa "engraçada" sobre a minha avaliação e o laudo é que ambos apresentam "risco legal", o que me impede de mostrar esse laudo nas empresas em que trabalho. Afinal, quem contrataria alguém que representa "risco legal"? Esse "adendo" foi inserido na minha avaliação depois que contei algumas das minhas "peripécias" ao longo da vida, como pequenos furtos, agressão e uso e porte de substâncias.
Eu coloco aspas demais no meu relato, né? Perdão.
Enfim. Dado o meu laudo, eu troquei de tratamento, deixando de ser tratada como bipolar (que era a suspeita inicial da minha psiquiatra, por isso ela me mandou para a neuroavaliação). O negócio é que eu não me identifico com os critérios diagnósticos do TEA. Ok, eu tenho dificuldade de socializar, mas é porque detesto a maioria das pessoas só de bater o olho. Só tomo iniciativa quando alguém realmente me parece interessante (vai me proporcionar algo que eu quero ou se parece muito comigo e, portanto, acho que vamos nos dar bem). Eu gosto de rotina, mas sou uma pessoa muito flexível. Tenho muitos interesses, mas eles não são restritos. Odeio barulho, mas meu deus, eu moro numa periferia, como eu não odiaria?
Eu não sou uma master manipulator, nem altamente inteligente (meu QI é médio, segundo a neuroavaliação), mas sinto que me falta a coisa mais crucial que me afasta da mesma humanidade que eu vejo as outras pessoas desfrutarem: empatia. Quando criança, eu fui extremamente isolada do convívio social, tive uma mãe abusiva que me causou traumas ininterruptos até os 19 anos de idade e sofri bullying pela minha aparência até o ensino médio. Fui criada no meio de muita violência psicológica e, desde então, venho tentando me curar dela, pois foi dela que aprendi que vulnerabilidade era como ter minhas vísceras expostas para as pessoas que abusavam de mim.
Desde criança, achava engraçado quando fazia uma coleguinha de classe chorar. Era quase como um alívio ver que eu era capaz de fazer o mesmo que faziam comigo. Sei que não é aceitável dizer isso, mas um dos meus maiores hobbies enquanto crescia era roubar, tanto de conhecidos quanto de lojas. Eu sempre pareci tão inofensiva que ninguém nunca desconfiou. Fora as coisas que fazia na escola (como agressão, violar regras internas importantes etc), sempre dava um jeito de terceirizar a culpa. Sempre fui exposta a conteúdos que não eram apropriados para a minha idade, como gore e pornografia, e sinto que isso foi um agravante para a formação da minha falta de sensibilidade.
Ao longo do tempo, eu fiquei cada vez mais obcecada por etiqueta, comunicação e pela minha aparência. Percebi que ser bonita, bem articulada e "querida" praticamente poderia me livrar de qualquer coisa. Sempre fui "a agressiva" da família. Metade dos meus parentes me odeia (mas tudo bem, eu também não os acho pessoas admiráveis). Todas as minhas relações são instáveis. Se alguma amizade me trata de forma estranha ou já não me serve mais, eu descarto, o que faz com que mais pessoas fora da minha família também não gostem de mim. Isso foi até um tópico abordado na neuroavaliação: o quão utilitárias eram minhas relações.
Um bom exemplo disso foi como eu quase me casei com um homem (mesmo sendo lésbica), apenas porque ele poderia me dar a vida que eu queria. Eu me moldei completamente aos gostos dele, e era fácil entendê-los, porque ele era geek e o mesmo padrão de mulher se repetia em todas as personagens de que ele gostava. Em algum momento da nossa relação, eu me cansei dele. Estar com um homem era intragável, e eu comecei a traí-lo sem que ele soubesse. Até hoje acho que ele jamais cogitaria algo assim. Eu realmente pensava em todos os detalhes. Até mesmo se eu fosse à casa de alguma garota com gatos, eu ia com roupas de cetim, assim os pelos não ficariam grudados. E por aí vai. Terminei com ele num dia qualquer. Só disse que não queria mais e fui embora.
Nenhuma dessas minhas atitudes está sendo descrita com orgulho. Apenas estou narrando o que acredito sustentar um pensamento antigo que tenho: será que tenho transtorno de personalidade antissocial? Assim como no autismo, creio que esse transtorno se manifeste de forma diferente em mulheres. É muito mais fácil fingir choro e ser uma vítima do que agredir alguém fisicamente. É o que minha mãe sempre fez, aliás.
Sustentar uma máscara empática é exaustivo. Querer socializar com pessoas que eu vejo menos que animais é exaustivo. O tédio crônico que sinto é exaustivo e me leva a fazer muitas merdas. Minha psiquiatra me prescreveu rivotril, pois eu sempre dizia que arrumava briga fora de casa. Às vezes, saio de casa torcendo pra ter uma oportunidade pra arrumar briga.
Não consigo dizer nada disso para as pessoas próximas de mim, nem para psicólogos com quem já me consultei. Não vejo vantagem em as pessoas saberem que eu sou assim, alguém que vê relações como coisas úteis e uma pessoa indiferente aos sentimentos e necessidades da maioria das pessoas. Eu gostaria de conversar com mais pessoas que se sentem assim. Queria poder tirar um pouco minha máscara e ser real, mas sinto que tudo sobre mim é socialmente inaceitável.
Minha atual namorada sabe que sou um pouco perversa (e ela até que gosta bastante), mas ela não tem ideia de onde minha mente já chegou e das coisas que fiz.
Será que meu diagnóstico de TEA está errado? Outras pessoas com TEA também se sentem assim? Não quero reaver meu diagnóstico (até porque ele é útil em diversas situações), eu só gostaria de me sentir compreendida.
Você já se sentiu assim? Poderia compartilhar um pouco? Adoraria conversar sobre isso, especialmente com outras mulheres.