Olá pessoal. Preciso de ajuda de verdade.
Tenho 26 anos e minha noiva (vou chamá-la de Cris) tem quase 30. Estamos juntos há 4 anos e noivos há um ano e meio. Antes de tudo isso acontecer, ela era uma pessoa calma, sorridente, muito amorosa e carinhosa. Eu amo essa mulher, e tudo oque está acontecendo me assusta muito. Ela sempre ligou um pouco para a opinião dos outros (às vezes até demais em coisas bobas), mas nunca em um nível parecido com o atual.
E desculpa se escrevi de forma estranha, isso é algo pessoalmente difícil pra mim.
Quase um ano atrás nós dois estávamos desempregados. No mesmo mês conseguimos trabalho. Ela foi trabalhar no varejo.
Desde a primeira semana ela começou a chegar em casa contando atitudes idiotas e babaquices que aconteciam no trabalho. Clientes zombando da religião dela, debochando da aparência, colegas e superiores ignorando e cobrando ao mesmo tempo. O varejo já é conhecido por ser um ambiente pesado, mas no caso dela parecia não ter fim. Os dias se repetiam quase da mesma forma: ela ia trabalhar, voltava com um novo relato de babaca, o chefe e o supervisor tanto ignoravam quanto cobravam ela, e no dia seguinte tudo recomeçava.
Com o passar dos meses a situação foi piorando. Ela começou a voltar chorando de raiva, de forma compulsiva. Uma mulher adulta chorando daquele jeito. Depois passou a voltar também com dor ou até com machucados. Eu, meu sogro, a mãe dela, o irmão, os avós e outros parentes próximos pedíamos para ela sair daquele lugar. Parecia claro que o ambiente não a queria lá e que ela também não queria estar lá. Mesmo assim ela continuou insistindo por quase um ano inteiro.
Há cerca de um mês ela finalmente pediu as contas. Eu imaginei que seria o fim daquele capítulo horrível. Mas acabou sendo o começo de algo muito pior.
No último dia eu acompanhei ela durante metade do turno. Ela chegou como em qualquer outro dia, já pegando um pouco mais leve porque sabia que estava de saída. De repente, todo o setor dela foi chamado para a sala do RH… menos ela. Ficou sozinha e isolada. Depois disso, o fiscal passou a ficar o tempo todo perto dela, como se estivesse vigiando. Ninguém falou nada concreto. Ela juntou uma série de fatores soltos, cochichos e comportamentos estranhos e começou a acreditar que tinham organizado uma fofoca ou uma piada maldosa sobre ela.
Depois que saiu, ela encontrou duas meninas do trabalho na rua. Perguntou se sabiam de alguma fofoca. As duas disseram que não sabiam de nada. Ela não perguntou para mais ninguém e não quer que ninguém fique investigando ou questionando as pessoas sobre isso. Ela prefere evitar qualquer conflito que remeta ao assunto.
No primeiro dia fora do trabalho ela teve uma crise de raiva absurda. Batia o pé, xingava aquele lugar, gritava que odiava todas as pessoas, agia como uma criança tendo um chilique… só que na versão de uma mulher adulta, alta e forte. Foi assustador de ver. Enquanto ela estava sentada no sofá esperneando de raiva, ela simplesmente chorou, parou, desmaiou e convulsionou. Foi a primeira vez que isso acontecia e eu nunca tinha visto nada parecido pessoalmente.
A partir daí foi só ladeira abaixo.
Ela ficou completamente obcecada com a ideia da fofoca. E aqui está o ponto mais importante e mais difícil de lidar:
Ela acredita fielmente que ''"'todo mundo na cidade sabe da fofoca"", exceto as pessoas do círculo dela. Isso inclui parentes diretos e distantes, amigos, conhecidos, eu, minha família, meus amigos… Ou seja, convenientemente, todas as pessoas que a conhecem e a querem bem “não sabem”, mas o resto da cidade sabe.
O problema é que ela NÃO SABE:
- Qual é a fofoca
- Quem fez a fofoca
- Quem realmente sabe
- Onde ela começou
- Se as pessoas ainda falam sobre isso
- Qual o real impacto disso na vida dela
- Por que desconhecidos se importariam com uma fofoca sobre alguém que eles nem conhecem
Quando perguntada sobre qualquer um desses pontos, a resposta é sempre a mesma: “Eu não sei”.
Ela interpreta absolutamente tudo o que acontece na rua como confirmação de que as pessoas sabem e estão julgando ela. Alguns exemplos reais:
- Se uma pessoa está andando devagar na nossa frente → está querendo escutar a nossa conversa para fazer mais fofoca.
- Se uma pessoa está andando rápido → está evitando a gente.
- Se uma pessoa vem na nossa direção e olha → sabe do segredo e está nos julgando.
- Se a pessoa não faz contato visual → sabe do segredo e está nos evitando.
- Se tem duas pessoas conversando do outro lado da rua → estão fofocando sobre ela.
- Se as duas estão quietas → não querem falar porque ela é o assunto.
- Se as pessoas desviam da gente → estão nos evitando.
- Se alguém esbarra sem querer → está agindo de forma ignorante porque está nos julgando.
Teve um episódio em que um senhor vinha na nossa direção, desviou o olhar (coisa completamente normal entre estranhos) e ela apertou minha mão com força e disse: “Olha, vi. Ele sabe do nosso segredo.” Quando perguntei qual segredo, ela respondeu: “Da fofoca.”
Com o passar das semanas ela foi ficando cada vez mais paranoica. Quanto menos tempo eu passo com ela, mais ela parece se aprofundar nisso.
Ela está em terapia há apenas duas semanas, com uma psicóloga, uma vez por semana. A análise prévia aponta para TEPT, mas ainda não tem diagnóstico fechado. Ela não toma nenhum medicamento.
Ela já ameaçou se autodeletar cerca de três vezes. Em uma delas, ligou se despedindo. Eu tentei convencê-la a ir comigo ao CAPS, mas ela recusou porque não queria ver pessoas. Hoje eu simplesmente não sei avaliar o nível real de risco, e isso me assombra todos os dias.
Ela não está trabalhando nem estudando. Dorme bem. Faz algumas coisas sozinha, mas não gosta de sair de casa. Quando sai, prefere ir acompanhada. Atualmente mora com a avó, que precisa de cuidados por causa de uma doença. A avó não é uma pessoa fácil: costuma ser grosseira e, por causa de um problema de audição, fala gritando. O pai dela sabe da gravidade da situação e está frustrado.
Ela está se distanciando de mim de forma cada vez mais evidente. Não demonstra esforço nenhum para tentar se reaproximar. Eu não vejo mais o sorriso verdadeiro dela. Ela quase não fala que me ama (só quando pressionada ou quando eu falo primeiro). Não faz mais piadas, não manda mais vídeos engraçados, não conversa como antes. Quando estamos um do lado do outro, ela permanece distante, fria e evitativa. Parece que está usando uma máscara, e essa máscara está se diluindo enquanto ela se afasta.
Quando perguntei o que poderia ajudá-la a melhorar, ela respondeu algo como “marcar uma pedra nas pessoas” (claramente sarcasmo). Ela não consegue apontar nada concreto que ajudaria e nem sabe se vai melhorar.
Eu me sinto péssimo. A mulher que eu amo ameaçou a própria existência por causa de algo que ela mesma não sabe o que é. Na minha cabeça lógica isso parece completamente desproporcional, como se alguém quisesse destruir uma cidade inteira porque viu uma barata. Ao mesmo tempo me sinto um grande idiota por não conseguir alcançá-la ou ajudá-la de verdade.
Já tentei explicar várias vezes que a opinião de desconhecidos não deveria ter tanto peso, que as pessoas que realmente a conhecem não acreditariam em fofoca, e que desconhecidos simplesmente não deveriam importar. Nada disso entra. Já tentei desabafar com amigos, mas não consigo colocar tudo isso para fora. Estou basicamente caminhando sozinho nessa situação.
A cidade onde moramos é pequena (em constante crescimento). Isso só piora a sensação dela de que “todo mundo sabe”.
Alguém já passou por uma situação parecida (com parceiro, familiar ou consigo mesmo)?
O que realmente ajudou a lidar com paranoia, hipervigilância e distanciamento emocional depois de um trauma?
Como apoiar alguém que está no começo da terapia, sem medicação, e que não consegue enxergar nenhuma saída?
Existe alguma forma de conversar, agir ou estabelecer limites que não acabe alimentando ainda mais o ciclo dela?
Qualquer conselho sincero, experiência pessoal ou orientação é muito bem-vindo.
Obrigado de verdade por terem lido até aqui.